Esses dias encontrei Maria José, 26 anos. Ela foi minha aluna há quatro anos e agora acaba de se formar em Psicologia pelo Prouni, através do sistema de cotas do Governo Federal. Faço questão de destacar isso porque ela é uma mulher preta e anti-Lula. Não preciso nem dizer quem é o candidato dela. Isso, por si só, já ajuda a entender parte da visão de mundo que ela construiu.
Maria é daquele tipo de gente que vê Jesus em tudo. Nada contra o que ela vê. A questão nunca foi essa. A questão começa quando aquilo que ela acredita passa a ser imposto como verdade para os outros.
Nos encontramos por acaso e deu tempo de colocar a conversa em dia. Perguntei como ela estava, como andava a vida após a faculdade, se já estava atuando na área. Ela me disse que estava animada para exercer a profissão e, logo em seguida, comentou com entusiasmo sobre a criação da Frente Parlamentar Mista em Defesa da Liberdade Religiosa dos Psicólogos Cristãos.
“Finalmente vão parar de perseguir os psicólogos cristãos”, disse ela.
Quando ouvi aquilo, fiquei pensando. Pensando não apenas em como responder, mas no que exatamente essa frase revela sobre o momento em que estamos vivendo.
Então eu disse:
Engraçado, Maria. Vocês, esses ditos cristãos, todos os dias dizem que são perseguidos. Eu digo privilegiados. Pense comigo.
É bancada da Bíblia.
É PEC ampliando imunidade tributária para igrejas, templos religiosos e entidades beneficentes.
É música gospel nos ônibus públicos.
É som alto nas praças pregando que Jesus vai voltar.
É oração dentro do Congresso.
É oração dentro de fóruns.
É festa de aniversário com culto.
É Marcha para Jesus como se Jesus fosse algum general.
É canal gospel em televisão aberta vendendo água ungida, objeto consagrado, promessa de bênção e milagre.
É música gospel no supermercado.
É igrejinha em praticamente toda periferia.
É pastor milionário com jatinho, helicóptero e mansões.
E agora temos também uma Frente Parlamentar Mista em Defesa da Liberdade Religiosa dos Psicólogos Cristãos.
Diante disso, eu faço uma pergunta simples: quem realmente está sendo perseguido?
Esse debate, para mim, não é sobre fé. É sobre poder.
Quem quer ouvir a palavra de Deus vai para a igreja.
Quem quer confessar vai para o confessionário.
Quem quer aconselhamento espiritual procura seu pastor, padre, guia religioso ou qualquer tradição que escolha seguir.
Quem quer ciência vai para o psicólogo.
É exatamente aqui que a discussão começa.
Ser psicólogo e ser cristão não é problema algum.
Ser psicólogo e ser espírita também não.
Ser psicólogo e ser judeu, muçulmano, adepto das religiões de matriz africana, indígena ou ateu também não.
O problema nunca foi a fé do profissional.
O problema começa quando a religião passa a ocupar o lugar da técnica. Quando convicções pessoais interferem na prática clínica. Quando julgamentos morais começam a substituir conhecimento científico.
Ser laico não significa ser contra religião. Significa atuar de forma imparcial e respeitosa diante das diferentes crenças, vivências e subjetividades.
A crítica, portanto, não é ao fato de um psicólogo ser cristão. A crítica é ao risco de conduzir a clínica a partir da religião.
E aqui entra uma questão prática que muita gente evita encarar.
Imagine uma paciente em sofrimento psíquico, vivendo conflitos profundos sobre sua sexualidade. Uma mulher tentando compreender e aceitar sua orientação sexual. Ou um homem enfrentando esse mesmo processo de descoberta.
Quem garante que um profissional cuja crença pessoal condena a homossexualidade não irá, mesmo sem perceber, transformar sofrimento psíquico em julgamento moral?
Quem garante que essa pessoa não ouvirá:
“Procure a igreja.”
“Ore mais.”
“Isso é influência espiritual.”
“Você precisa ser curada.”
Agora pense em outro cenário.
Uma pessoa em depressão profunda, em crise, emocionalmente fragilizada.
Quem garante que ela receberá escuta clínica baseada em ciência, e não um encaminhamento religioso disfarçado de cuidado?
“Busque a palavra de Deus.”
“Você precisa de oração.”
“Isso é falta de espiritualidade.”
Esse é o centro do debate.
Não se trata de negar a importância da espiritualidade. Para muitas pessoas, a fé é fonte legítima de sentido, acolhimento e suporte emocional.
Mas uma coisa é a fé como dimensão subjetiva do paciente.
Outra, completamente diferente, é a religião se tornar ferramenta de intervenção clínica.
E isso é grave.
Porque quando religião ocupa o lugar da ciência dentro da prática clínica, o risco deixa de ser teórico. Ele se torna concreto, humano e perigoso.
Inclusive, essa mistura inadequada já causou prejuízos enormes à própria Psicologia. Ao longo do tempo, discursos moralistas, culpabilizantes e não científicos comprometeram a credibilidade da profissão e afetaram diretamente pessoas em situação de vulnerabilidade.
E aqui eu faço outra pergunta.
Você já viu tradições indígenas exigindo uma frente parlamentar específica?
Já viu espíritas?
Religiões de matriz africana?
Ateus?
Muçulmanos?
Judeus?
Quem realmente sofre perseguição religiosa no Brasil?
Quem realmente tem seus espaços violados?
Quem sofre ataques físicos, discriminação e intolerância?
Porque, sinceramente, o que vejo não é perseguição a cristãos.
O que vejo é o avanço de um projeto de poder.
Na minha leitura, essa frente parlamentar não surge para proteger a Psicologia.
Ela surge como mais um movimento do fundamentalismo religioso tentando ampliar influência sobre áreas que deveriam permanecer éticas, científicas e técnicas.
O Brasil, pela Constituição, é um Estado laico.
Pelo menos deveria ser.
Na prática, porém, há muito tempo vemos uma ocupação crescente das instituições por setores religiosos que tentam transformar convicções particulares em norma coletiva.
E isso precisa ser debatido.
Não sou defensor incondicional dos Conselhos de Psicologia. Eles têm falhas, limitações e precisam de críticas.
Mas, nesse caso específico, a discussão é legítima.
Porque estamos falando dos limites entre crença pessoal e prática profissional.
Estamos falando da proteção da ética.
Da ciência.
Da técnica.
E, principalmente, da proteção dos pacientes.
Profissões devem ser laicas.
Isso não impede a orientação religiosa do profissional em sua vida pessoal.
Mas impede o uso interesseiro da profissão para fins ideológicos, religiosos ou políticos.
Impossível não perceber o pano de fundo da atuação desses parlamentares.
A pergunta continua.
Para que serve, de fato, essa frente?
Proteção?
Ou expansão de influência?
Quando terminei de falar, Maria José apenas ouviu.
E eu não abri espaço para prolongar a discussão.
Sabia que, dali em diante, provavelmente ouviria passagens bíblicas sendo usadas para responder um debate que, para mim, deveria ser ético, científico e político.
Preferi encerrar ali.
Mas deixo a mesma pergunta para quem leu até aqui:
Você acredita que as profissões devem ser orientadas por evidências científicas e princípios técnicos ou por convicções religiosas?
Porque, para mim, quem quer ouvir a palavra de Deus vai para a igreja.
Quem quer ciência vai para o psicólogo.
