O nome parece igual, mas o perfil é outro: letras e símbolos na identificação digital

Como identificar contas imitadoras, reconhecer caracteres parecidos e conferir mensagens antes de clicar Por Sophie Ale

Caracteres parecidos de alfabetos diferentes são usados por criminosos para simular nomes e canais conhecidos. (Foto: Divulgação / Ilustração)

A mensagem aparece no celular com a foto de uma instituição conhecida, um nome familiar e a promessa de resolver uma pendência em poucos minutos. É fácil reconhecer a imagem e seguir adiante. Difícil é perceber, na pressa, que o perfil talvez não pertença a quem diz representar.

Imagine a situação: alguém recebe uma suposta atualização de cadastro por um aplicativo de mensagens. A foto parece oficial, a descrição repete o nome de um serviço e o endereço enviado tem letras quase iguais às esperadas. O exemplo é hipotético, mas reúne sinais que vale observar em qualquer cidade — inclusive em Aracaju.

Um perfil convincente não precisa copiar tudo. Às vezes basta uma letra trocada, uma foto reaproveitada ou um símbolo que faça o nome parecer conhecido. A pergunta mais importante não é “o nome está bonito?”, e sim “como sei que este canal realmente pertence à instituição?”.

Quando o nome de exibição não identifica a conta

O nome que aparece em destaque em uma rede social pode ser escolhido e alterado pelo responsável pelo perfil, conforme as regras da plataforma. Fotos, biografias e símbolos também podem ser reproduzidos por terceiros. Por isso, a aparência do cartão de perfil não equivale a uma confirmação independente de identidade.

Uma associação cultural, uma loja de bairro ou um projeto estudantil pode usar corações, estrelas ou pontinhos em sua apresentação sem qualquer intenção de enganar. Os símbolos para copiar são caracteres legítimos de texto, usados em bios, mensagens e nomes. O alerta começa quando esses elementos são empregados para sugerir uma identidade que não foi confirmada — sobretudo se a conversa vier acompanhada de uma cobrança, pedido de senha ou link inesperado.

Também é importante separar o nome exibido do identificador específico de uma conta. Eles podem ter regras diferentes de caracteres e mudança, dependendo do aplicativo. O caminho seguro é encontrar o perfil por uma fonte independente, como o endereço institucional digitado pelo próprio usuário, em vez de confiar apenas no cartão enviado por mensagem.

O “o” que não é o mesmo “o”: um detalhe técnico com efeito real

O Unicode é o padrão que permite representar texto de muitas línguas e sistemas de escrita. Ele inclui caracteres diferentes que podem ficar visualmente parecidos em determinadas fontes e tamanhos. O Unicode Consortium descreve esses caracteres visualmente confundíveis como um problema relevante para a segurança de identificadores digitais.

Veja um exemplo didático. Em “conta”, o segundo caractere é a letra latina “o” (U+006F). Já em “cоnta”, a letra que parece um “o” é cirílica (U+043E). Não são o mesmo caractere, embora a diferença possa passar despercebida. Não se trata de nomes reais de empresas ou de perfis existentes; o objetivo é mostrar por que olhar rapidamente para a palavra não basta.

Esse fenômeno não significa que toda palavra com letras decorativas esconda um golpe. Tampouco indica que qualquer endereço com caracteres especiais seja malicioso. Ele só demonstra que caracteres visualmente próximos podem confundir o reconhecimento de nomes; a checagem da origem continua indispensável.

O alerta do TJSE: mensagens que parecem oficiais

Em fevereiro de 2026, o próprio Isto é Aracaju publicou a reportagem “TJSE alerta sobre golpe do falso Oficial de Justiça no WhatsApp”. O texto descreve criminosos que usam mensagens com ameaças e links suspeitos para simular comunicações judiciais, e reproduz orientações do Tribunal de Justiça de Sergipe para o público verificar a autenticidade do contato.

Há uma nuance importante nessa notícia: segundo a reportagem, o TJSE admite comunicações judiciais legítimas por WhatsApp sob regras específicas. Portanto, receber uma mensagem pelo aplicativo não prova, sozinho, que se trata de golpe; da mesma forma, ver o nome de um órgão no perfil não torna a mensagem verdadeira. A conferência deve ser feita nos canais institucionais independentes e conforme as orientações atualizadas do próprio órgão.

Esse cuidado vale igualmente para um anúncio de vaga de emprego, uma suposta promoção de uma loja ou uma mensagem atribuída a um serviço público. A combinação “nome conhecido + urgência + link” merece pausa antes de qualquer ação.

Cinco verificações práticas antes de responder

1. Leia o endereço inteiro, não só as primeiras letras. Antes de abrir uma página, observe o domínio real. Um nome parecido, uma palavra extra ou um endereço abreviado não confirma a origem.

2. Procure o canal oficial por conta própria. Entre no site que você já conhece ou busque a instituição em uma fonte independente. Não use o próprio link suspeito para provar que ele é confiável.

3. Desconfie de pressa, ameaça ou vantagem extraordinária. Pedidos para pagar imediatamente, compartilhar códigos ou “salvar” uma conta criam pressão. Interrompa a conversa e confira a situação.

4. Não use apenas foto, seguidores ou selo como prova. Elementos visuais podem ser copiados, mostrados fora de contexto ou interpretados incorretamente. Compare contatos e informações publicados pelo canal original.

5. Confirme fora daquela conversa. Se a mensagem vem de alguém conhecido pedindo dinheiro ou dados, faça uma ligação por um número salvo anteriormente ou use outro meio de contato.

Como personalizar um nome sem esconder a informação principal

A possibilidade de criar nomes expressivos é uma parte positiva da comunicação digital. Em páginas pessoais, comunidades de games ou pequenos negócios, letras diferentes e combinações visuais podem ajudar a construir uma identidade. Uma escolha legível, porém, geralmente comunica melhor do que um nome tão ornamentado que ninguém consegue pesquisar ou reproduzir.

Para um perfil público, uma regra simples ajuda: mantenha o nome reconhecível, evite misturar letras de alfabetos distintos apenas pelo efeito visual e teste como a identificação aparece em telas menores. Símbolos decorativos podem ficar na bio ou ao redor do nome; eles não devem substituir o endereço oficial nem servir como atalho para confiança.

E se você já clicou ou enviou alguma informação?

Evite continuar a conversa e não envie mais dados. Guarde evidências úteis, como capturas de tela, links e comprovantes, sem repassar informações sensíveis em grupos. Se houve transferência ou acesso bancário, procure imediatamente a instituição financeira pelos canais oficiais. Caso senhas ou códigos tenham sido compartilhados, altere as credenciais e revise a proteção da conta. A situação também pode ser comunicada à plataforma envolvida e à autoridade policial competente.

O mais importante é agir sobre os fatos verificáveis. Uma mensagem mal escrita pode ser autêntica; outra, impecável, pode ser falsa. O visual é uma pista, não um laudo.

A regra que cabe na próxima mensagem

A internet permite dar personalidade a cada nome — e também facilita copiar a aparência de uma identidade conhecida. Entre o reconhecimento e a confiança existe um passo essencial: conferir a fonte. Quando chegar a próxima mensagem “urgente” em nome de uma empresa, de um conhecido ou de um órgão público, procure primeiro um canal que você tenha encontrado por conta própria. A diferença entre dois perfis pode estar em um único caractere; a diferença entre clicar e verificar está na decisão de não agir no impulso.

Sobre a autora

Sophie Ale é autora e redatora do Letras Diferentes, projeto dedicado a recursos de escrita digital, letras, símbolos Unicode e personalização de textos. Conheça o perfil de autora.

Fontes editoriais para conferência

Isto é Aracaju — TJSE alerta sobre golpe do falso Oficial de Justiça no WhatsApp (05/02/2026).

Unicode Consortium — Unicode Technical Standard #39: Unicode Security Mechanisms (versão 18.0.0, 27/08/2026).

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