Em ano eleitoral, discutimos candidatos, partidos, governos e projetos para o país. Mas a política não revela apenas quem queremos no poder. Escolher em quem votar fala também sobre quem somos quando nossos interesses entram em jogo.
A campanha eleitoral de 2026 acontece em um cenário novo. Muito além da disputa por votos, a disputa pela atenção do eleitor está cada vez mais sofisticada. Inteligência artificial, conteúdos manipulados e deepfakes já exigiram regras específicas por parte da Justiça Eleitoral.
Nunca foi tão fácil alcançar milhões de pessoas e influenciar percepções. Medo, indignação e sensação de pertencimento podem ser ativados em segundos. As ferramentas tecnológicas são poderosas, mas é a intenção de quem as utiliza que pode vir a se tornar um problema.
Afinal, inteligência sem consciência não garante evolução. O conhecimento também pode apenas ampliar impulsos antigos, como egoísmo, vaidade, desejo de poder e dificuldade de enxergar além dos próprios interesses.
A lógica do grupo e os limites da ética
A política torna tudo isso visível. É por meio dela que vemos como reagimos quando valores, interesses e identidades entram em conflito, e até onde conseguimos reconhecer quem está fora do nosso “grupo”.
Um artigo publicado este ano na Nature Reviews Psychology ilustra essa tensão: cooperamos com facilidade entre indivíduos, mas essa disposição enfraquece quando a identidade de grupo entra em cena. Reciprocidade, empatia e segurança constroem pontes; da mesma forma, a lógica do “nós contra eles” ergue muros.
No debate político, esse mecanismo fica mais evidente. Quando a identidade do grupo pesa mais do que os fatos, deixamos de avaliar argumentos e passamos a defender posições. O erro dos nossos ganha justificativa, enquanto o mesmo erro, quando vem do outro lado, vira motivo de condenação.
Isso não nasce das ideologias de direita, esquerda ou centro. A política apenas revela, com mais nitidez, algo que já existe em todos nós.
E é justamente aí que a consciência se torna incômoda. Não basta identificar o viés do outro, é preciso reconhecer o próprio. É fácil exigir ética quando a falta dela favorece o adversário, mas muito mais difícil sustentá-la quando o limite precisa ser imposto ao nosso lado.
Fraternidade como princípio de convivência
Nesse ponto, a fraternidade sai da abstração e passa a ter peso político, não como ingenuidade ou apelo moral, mas como princípio de convivência entre pessoas que não pensam, não vivem e não desejam as mesmas coisas.
É essa diferença que a fraternidade exige reconhecer: individualidade é afirmar o próprio lugar no mundo sem apagar o espaço do outro, enquanto o individualismo faz dos próprios interesses a medida de tudo.
Viver em sociedade exige esse deslocamento entre compreender que a criança que não é minha também precisa de educação, que o idoso que não pertence à minha família merece dignidade, que o trabalhador que nunca conhecerei precisa de condições dignas para viver e que até quem pensa de forma oposta continua fazendo parte da mesma sociedade.
Fraternidade, portanto, não exige concordância, mas a capacidade de reconhecer que o destino do outro também atravessa o nosso.
Em uma eleição marcada pelo avanço da inteligência artificial, essa responsabilidade se torna ainda mais concreta, porque nenhuma regra será capaz de substituir por completo o discernment individual. Antes de compartilhar, atacar ou reagir, cabe a cada um verificar, pensar, distinguir fato de opinião e, é claro, reconhecer quando está defendendo um princípio ou apenas protegendo a própria identidade.
*Melissa Artioli é coach de Desenvolvimento Humano, palestrante, executiva com mais de 20 anos de experiência e empreendedora. É autora de “Solte, Entregue, Confie – Uma jornada para sua melhor versão”, publicado pela DVS Editora.
(Por Bárbara Azalim)
Acesse mais conteúdos na seção: Artigos
Siga o Isto é Aracaju e receba as notícias em primeira mão.
