Salve o Vaza-Barris: movimento cobra proteção do rio, dos manguezais e das comunidades da Zona de Expansão

Moradores, frequentadores, pesquisadores e representantes de comunidades tradicionais alertam para impactos ambientais, perda de território e apagamento da memória diante do avanço urbano na região.

De
Pesquisador Paulo Marcelo
Jornalista, Intelectual Público, Pesquisador, Comunicador, Fotógrafo, Professor, Palestrante, Designer e Busólogo.

O Rio Vaza-Barris é mais do que uma paisagem. Para quem vive, trabalha ou frequenta suas margens, ele representa território, memória, cultura, lazer, subsistência e identidade.

Foi com esse entendimento que moradores, frequentadores da região, ambientalistas, pesquisadores e representantes de comunidades tradicionais participaram de mais um ato em defesa do Rio Vaza-Barris e dos manguezais da Zona de Expansão de Aracaju.

O Vozes365 esteve presente para ouvir essas pessoas e compreender uma questão que ultrapassa a discussão ambiental: que cidade Aracaju pretende construir e o que está disposta a preservar nesse processo?

A mobilização não é nova. Segundo participantes ouvidos pela reportagem, este foi o segundo ato realizado em defesa do rio.

Para Bárbara Távora, frequentadora assídua da região, preservar o Vaza-Barris significa também proteger relações sociais e culturais construídas em torno do território.

“É um meio de socialização importante, da gente manter também a cultura, manter as relações sociais preservadas e, com certeza, preservar também a nossa natureza.”

Bárbara também questiona a qualidade dos estudos e pareceres utilizados para embasar intervenções na região. Segundo ela, os documentos apresentados não traduziriam, na sua avaliação, a dimensão dos impactos ambientais provocados pelas obras.

Para ela, a mobilização precisa ultrapassar os limites de quem já frequenta ou mora na região.

“Vale a gente lutar sim. Vale a gente estar aqui hoje. Esse não é o primeiro ato, já é o segundo ato. A gente está tentando se mobilizar, está fazendo o nosso papel social.”

Um rio que pertence a toda a cidade

Miller e Evelyn, moradores da região há cerca de seis anos, também participaram do ato. Eles lembram que o local já era conhecido como ponto de lazer e banho muito antes da atual pressão urbana.

Para Miller, a preservação não deveria ser uma preocupação exclusiva de quem mora na Zona de Expansão.

“É um rio que atende a população como um todo. Então não deveria ser uma preocupação só dos locais.”

O alerta ganha outra dimensão quando se considera o avanço da urbanização.

Evelyn chama atenção para a relação entre o rio, o mangue, a cultura local e o sustento das comunidades.

“É um pedacinho que ainda está preservado aqui de Aracaju, da Grande Aracaju.”

O casal também aponta a necessidade de maior fiscalização ambiental. Para eles, é necessário ampliar o monitoramento e criar condições para que preservação ambiental, turismo e atividade econômica possam coexistir.

Por que tão pouca gente participa?

Uma das questões que mais chamam atenção durante o ato é a baixa participação popular diante de um problema que, segundo os participantes, ultrapassa os limites da Zona de Expansão.

A pergunta foi levada pela reportagem à pesquisadora Dra. Myrna Landim.

A resposta não é simples.

Para Myrna, existem diferentes fatores. Entre eles está a própria dimensão territorial da Zona de Expansão e a ausência de uma organização popular de base suficientemente estruturada para alcançar toda a população potencialmente afetada.

Ela também chama atenção para o papel das redes sociais.

“As pessoas são conectadas na internet, mas o algoritmo está lá entregando lazer, ócio, bobagem e muitas vezes a informação mais necessária para elas não está chegando.”

Mas existe outro elemento nessa equação.

Segundo Mirna, parte da população pode enxergar o avanço urbano como sinônimo de progresso.

“Progresso é um termo muito perigoso.”

A pesquisadora explica que, para quem chega de áreas marcadas pelo concreto, asfalto, trânsito e poluição, a região pode representar um verdadeiro paraíso. Para algumas pessoas que já vivem ali, entretanto, o empreendimento urbano pode ser percebido como oportunidade de desenvolvimento.

O problema, segundo ela, está naquilo que não aparece no discurso.

“O que pode estar por trás desse progresso?”

Entre as consequências apontadas por Myrna estão o aumento do preço da terra, o encarecimento do custo de vida e o risco de perda dos territórios tradicionalmente ocupados.

A transformação urbana, nesse cenário, não precisa necessariamente acontecer por meio de uma expulsão direta.

A população pode simplesmente deixar de conseguir permanecer no território.

O rio também é território de comunidades tradicionais

A discussão ganha uma dimensão cultural na fala de Martha, representante de uma comunidade tradicional de terreiro e coordenadora de um espaço de arte, cultura e educação.

Segundo ela, o movimento em defesa do Vaza-Barris começou há cerca de dois anos, a partir da percepção de que era necessário proteger não apenas a água, mas todo o território.

“A gente foi percebendo que precisava fazer um movimento de salvaguarda dessas águas e desse território.”

Para Marta, não é possível discutir desenvolvimento urbano sem considerar as pessoas que vivem naquele espaço.

Ela cita pescadores, marisqueiras e comunidades tradicionais que construíram historicamente sua relação com o rio e com os recursos naturais.

“Pensar o modelo de desenvolvimento é pensar as pessoas.”

A frase resume uma das principais questões apresentadas durante o ato.

Para os participantes, o debate não deveria ser colocado simplesmente como uma escolha entre desenvolvimento ou preservação. A discussão deveria ser sobre qual modelo de desenvolvimento pode ser construído sem eliminar as características ambientais, sociais e culturais do território.

“Que história vamos contar?”

Quando questionada sobre o que poderá ser perdido se nada mudar nos próximos 10 ou 20 anos, Marta amplia a discussão.

Não se trata apenas da água.

Não se trata apenas do manguezal.

Não se trata apenas da paisagem.

Trata-se da memória.

“Vai perder a memória, vai perder a história. Que Aracaju é essa que vai chegar até aqui contando que história?”

A região, segundo ela, possui características de comunidade tradicional, incluindo relações de parentesco e modos de vida construídos ao longo de gerações.

Marta também questiona a transformação de antigos povoados em bairros sem que, segundo seu relato, as comunidades tenham sido consultadas sobre a mudança.

“Nós não fomos consultados.”

Para ela, a mudança administrativa não elimina apenas uma denominação. Pode também apagar referências culturais e identitárias construídas pela população.

Quem já foi expulso pela transformação do território

A reportagem também ouviu Lúcia Barroso, antiga moradora da região.

Sua experiência dá uma dimensão concreta ao debate sobre valorização imobiliária e transformação territorial.

Lúcia afirma ter sido expulsa da região depois de se recusar a vender sua casa.

“Eu fui expulsa realmente porque eu não queria vender minha casa. Investi tudo que tinha para ter uma velhice mais tranquila.”

Segundo ela, as obras realizadas na região também provocam impactos ambientais que podem ser observados diretamente no território.

Ela cita retirada de árvores, movimentação de areia e assoreamento.

“Então é lutar agora enquanto a gente ainda tem esse pouco de mangue.”

A fala de Lúcia também retoma uma questão que aparece em praticamente todos os depoimentos: a necessidade de ampliar a participação popular.

Para ela, não basta denunciar. É preciso encontrar maneiras de aproximar as comunidades da discussão sobre o futuro do território.

A pergunta que fica para Aracaju

O encontro em defesa do Vaza-Barris revela uma contradição.

De um lado, existe uma região valorizada justamente por aquilo que ainda conserva: rios, manguezais, áreas naturais, paisagem, possibilidades de lazer e turismo e comunidades que mantêm relações históricas com o território.

De outro, existe a pressão pela urbanização e pela transformação da paisagem.

E talvez a questão mais importante não seja simplesmente perguntar se Aracaju precisa se desenvolver.

A cidade precisa se desenvolver.

A pergunta é como.

Como crescer sem transformar rios em canais?

Como urbanizar sem eliminar manguezais?

Como valorizar o território sem expulsar quem sempre viveu nele?

Como promover turismo sem destruir aquilo que atrai o visitante?

E, principalmente, como construir políticas públicas para um território ouvindo quem vive nele?

O movimento Salve o Rio Vaza-Barris coloca essas questões em debate.

E deixa uma pergunta que ultrapassa as margens do rio:

que cidade queremos deixar para as próximas gerações?

Porque salvar o Vaza-Barris é preservar muito mais do que um curso d’água.

É preservar memória, cultura, natureza, modos de vida e a possibilidade de uma cidade que consiga olhar para o futuro sem apagar aquilo que veio antes.

Aracaju não pode repetir os erros do passado.

Salve o Rio Vaza-Barris.

Compartilhe esta notícia
Jornalista, Intelectual Público, Pesquisador, Comunicador, Fotógrafo, Professor, Palestrante, Designer e Busólogo.