QUANDO A POLÍTICA VIROU TORCIDA

De
Pesquisador Paulo Marcelo
Jornalista, Intelectual Público, Pesquisador, Comunicador, Fotógrafo, Professor, Palestrante, Designer e Busólogo.

Direita e esquerda nasceram de uma circunstância quase banal. Em 1789, durante a Revolução Francesa, os partidários do rei sentavam-se à direita na Assembleia Nacional, enquanto aqueles que defendiam limitar o poder da monarquia ocupavam os assentos à esquerda. O que começou como uma disposição espacial acabou se transformando em uma das principais formas de organizar o pensamento político moderno.

Mas talvez o problema do nosso tempo não esteja mais exatamente na existência da direita ou da esquerda.

O problema começa quando deixamos de discutir ideias e passamos a defender identidades.

No Brasil, especialmente depois de 2013, a política foi deixando de ser apenas uma disputa sobre projetos de sociedade e passou a funcionar cada vez mais como uma espécie de campeonato permanente. De um lado, os nossos. Do outro, os inimigos.

E quando a política vira identidade, discordar deixa de ser uma possibilidade democrática e passa a ser interpretado como uma espécie de traição.

É aí que o debate começa a morrer.

A pessoa já não pergunta se determinada proposta é boa ou ruim. Pergunta primeiro quem a apresentou. Se veio do meu lado, procuro justificativas para defendê-la. Se veio do outro, procuro motivos para destruí-la.

A mesma medida pode ser chamada de responsabilidade quando é adotada pelo meu grupo e de absurdo quando é adotada pelo grupo adversário.

Não estamos mais necessariamente discutindo ideias.

Estamos defendendo camisas.

E talvez seja justamente por isso que seja tão difícil conversar.

Porque ideias podem ser revistas. Identidades, não tão facilmente.

Quando alguém diz “sou de esquerda” ou “sou de direita”, muitas vezes não está apenas dizendo o que pensa sobre economia, segurança pública, impostos, educação ou saúde. Está dizendo a qual grupo pertence. Está dizendo em qual arquibancada senta.

E ninguém gosta de descobrir que talvez a arquibancada esteja errada.

O resultado é uma política cada vez mais afetiva e cada vez menos racional. O adversário deixa de ser alguém que pensa diferente e passa a ser alguém que representa uma ameaça àquilo que eu sou.

É por isso que encontramos situações curiosas: pessoas defendendo políticos que, em circunstâncias normais, jamais defenderiam; relativizando erros que condenariam no adversário; compartilhando informações falsas porque confirmam aquilo que já acreditam; e tratando qualquer crítica ao próprio grupo como uma declaração de guerra.

O contraditório, que deveria ser uma ferramenta essencial da democracia, passa a ser encarado como provocação.

E existe uma pergunta incômoda aqui:

Quando foi que começamos a sentir o adversário político como inimigo?

Porque a política brasileira sempre foi marcada por conflitos. O Brasil tem uma história de violência política, repressão, golpes, autoritarismo, perseguições e profundas desigualdades. A polarização não nasceu com as redes sociais e certamente não começou com Lula e Bolsonaro.

Mas alguma coisa mudou.

A partir de 2013, o país passou a experimentar uma nova intensidade no conflito político. O impeachment de Dilma Rousseff, a Operação Lava Jato, a ascensão de Jair Bolsonaro, a prisão de Lula, a eleição de 2018, a disputa eleitoral de 2022 e os acontecimentos posteriores transformaram a política em uma presença quase permanente na vida cotidiana.

Até dentro das famílias.

No trabalho.

Nas amizades.

Nas redes sociais.

Na mesa do almoço.

E talvez a maior ironia seja esta: enquanto discutimos apaixonadamente quem é de esquerda e quem é de direita, problemas concretos continuam atravessando a vida de milhões de brasileiros independentemente da ideologia que carregam.

O salário entra ou não entra.

O remédio está ou não está na farmácia.

A consulta acontece ou não acontece.

A escola funciona ou não funciona.

O transporte chega ou não chega.

A polícia aborda ou não aborda.

O imposto aumenta ou diminui.

A comida fica mais cara.

O emprego aparece ou desaparece.

Essas coisas são concretas.

E é justamente sobre elas que deveríamos conseguir discutir política com mais seriedade.

Porque existe, sim, diferença entre governos.

Existe diferença entre políticas públicas.

Existe diferença entre prioridades orçamentárias.

Existe diferença entre concepções de Estado.

Existe diferença entre governos que acreditam mais na intervenção estatal e governos que defendem maior liberdade econômica.

Existe diferença entre políticas de segurança pública.

Existe diferença na forma de enfrentar desigualdade, educação, saúde, meio ambiente e desenvolvimento.

Portanto, dizer que “é tudo a mesma coisa” também é um erro.

O problema é outro.

É quando a diferença legítima entre projetos políticos transforma-se na incapacidade de reconhecer qualquer mérito no adversário.

A democracia não exige que a esquerda concorde com a direita.

Nem que a direita concorde com a esquerda.

A democracia exige algo mais difícil: que ambas reconheçam a legitimidade da existência da outra.

É perfeitamente possível defender o mercado e defender políticas sociais.

É possível defender responsabilidade fiscal e considerar a desigualdade um problema central.

É possível ser conservador nos costumes e defender políticas públicas de redução da pobreza.

É possível ser progressista e discordar de determinadas políticas econômicas da esquerda.

É possível criticar Lula sem ser bolsonarista.

É possível criticar Bolsonaro sem ser comunista.

É possível criticar um governo de esquerda sem defender a direita.

É possível criticar um governo de direita sem defender a esquerda.

Parece óbvio.

Mas, no Brasil de hoje, o óbvio virou quase uma provocação.

Talvez porque tenhamos nos acostumado demais com a lógica do “nós contra eles”.

E existe uma indústria inteira que se alimenta disso.

A indignação gera audiência.

A raiva gera compartilhamento.

O conflito gera engajamento.

O algoritmo não precisa que você compreenda o adversário. Ele precisa que você continue olhando para a tela.

Quanto mais furioso você fica, mais tempo permanece ali.

E quanto mais tempo permanece ali, mais conteúdo recebe para ficar ainda mais furioso.

A política, nesse ambiente, deixa de ser apenas uma disputa pelo poder e passa a ser também um mercado de emoções.

Medo.

Raiva.

Indignação.

Humilhação.

Pertencimento.

Orgulho.

E talvez seja por isso que algumas pessoas tenham mais dificuldade de abandonar uma opinião política do que de abandonar uma opinião sobre qualquer outro assunto.

Porque mudar de opinião pode significar, para elas, deixar de pertencer ao grupo.

E aí chegamos ao ponto mais perigoso.

Quando a identidade se sobrepõe à razão, admitir que o outro tem alguma razão parece uma derrota.

Mas não é.

Na verdade, talvez seja uma das maiores demonstrações de maturidade política.

Uma democracia saudável não é aquela em que todos pensam igual.

É aquela em que pessoas que pensam de maneira radicalmente diferente conseguem sentar na mesma mesa, discutir, discordar, votar e continuar reconhecendo umas nas outras o direito de existir.

O adversário político não precisa ser meu amigo.

Não precisa ser admirado.

Não precisa sequer ser convencido.

Mas precisa continuar sendo reconhecido como cidadão.

Talvez essa seja uma das tarefas mais urgentes do Brasil neste momento.

Recuperar a capacidade de discordar sem transformar o outro em inimigo.

Porque esquerda e direita podem continuar existindo.

Devem existir.

O que não pode continuar existindo é uma política em que qualquer crítica ao meu lado seja considerada traição e qualquer crítica ao outro seja automaticamente considerada virtude.

No fim das contas, talvez a pergunta mais importante não seja:

“Você é de esquerda ou de direita?”

Talvez seja:

“Você ainda consegue conversar com alguém que pensa diferente de você?”

Porque se a resposta for não, temos um problema maior do que qualquer eleição.

Temos um problema democrático.

E talvez o Brasil não esteja precisando de menos política.

Talvez esteja precisando de uma política menos apaixonada por seus próprios inimigos.

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Jornalista, Intelectual Público, Pesquisador, Comunicador, Fotógrafo, Professor, Palestrante, Designer e Busólogo.