Entre o rádio e a realidade: o tarifaço dos Estados Unidos e a importância de pensar além das narrativas

De
Pesquisador Paulo Marcelo
Jornalista, Intelectual Público, Pesquisador, Comunicador, Fotógrafo, Professor, Palestrante, Designer e Busólogo.

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Na última semana, entrei em um carro de aplicativo para uma viagem que parecia comum. O motorista era Cléverton, 41 anos. Durante o dia trabalha como promotor da Coca-Cola e, nas horas vagas, dirige para complementar a renda. O rádio estava ligado na Jovem Pan. Em poucos minutos, o assunto chegou ao novo tarifaço imposto pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros.

Com convicção, ele afirmou que a culpa era exclusivamente do presidente Lula. Segundo ele, o governo brasileiro não quis negociar e o país caminhava para se tornar uma nova Venezuela.

Em vez de responder imediatamente, fiz apenas uma pergunta:

— Posso apresentar um outro ponto de vista?

Ele respondeu que sim.

A partir dali, nossa conversa deixou de ser sobre direita e esquerda. Tornou-se uma discussão sobre geopolítica, soberania e a forma como acontecimentos internacionais complexos são frequentemente reduzidos a explicações simplistas.

O novo tarifaço anunciado pelos Estados Unidos não surgiu de forma isolada. Ele faz parte de um contexto internacional muito mais amplo, marcado pela crescente disputa estratégica entre Washington e Pequim. A política comercial norte-americana deixou de ser apenas um instrumento econômico. Hoje, ela também é utilizada como ferramenta de influência política e geopolítica.

Desde o retorno de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos, sua administração passou a adotar uma postura mais assertiva em relação ao comércio internacional. Tarifas, sanções e restrições comerciais passaram a integrar uma estratégia voltada à proteção dos interesses econômicos norte-americanos e ao enfrentamento da crescente influência chinesa.

Nesse cenário, o Brasil ocupa uma posição singular. A China é atualmente seu maior parceiro comercial, enquanto os Estados Unidos permanecem entre os principais mercados para produtos brasileiros. Isso faz do país um ator estratégico em um mundo cada vez mais multipolar.

Ao longo das últimas décadas, o sistema internacional passou por profundas transformações. O predomínio absoluto dos Estados Unidos começou a conviver com a ascensão econômica da China, a permanência da influência militar russa e o fortalecimento gradual de outras potências emergentes, como a Índia. Essa reorganização do equilíbrio global altera prioridades diplomáticas, comerciais e militares.

É justamente nesse contexto que decisões como o tarifaço precisam ser analisadas. Elas não decorrem apenas de divergências comerciais momentâneas, mas também da disputa por influência em um cenário internacional cada vez mais competitivo.

Isso não significa afirmar que toda ação dos Estados Unidos tenha exclusivamente motivações eleitorais ou ideológicas. Tampouco significa que governos brasileiros estejam acima de críticas. Relações internacionais raramente podem ser explicadas por uma única causa. Reduzi-las a slogans ou à responsabilização exclusiva de um governante empobrece a compreensão da realidade.

Durante nossa conversa, mencionei ainda um aspecto curioso. Autoridades norte-americanas afirmaram que o governo brasileiro não teria negociado “de boa-fé”. Dias depois, políticos brasileiros utilizaram argumentos muito semelhantes para comentar o episódio. Independentemente de coincidência ou alinhamento político, esse fato demonstra como determinadas narrativas atravessam fronteiras com rapidez e passam a estruturar o debate público.

O episódio vivido dentro daquele Uber me fez refletir sobre um problema maior do que o próprio tarifaço.

Vivemos uma época em que opiniões circulam em velocidade superior às informações. Muitas vezes, escolhemos um lado antes mesmo de compreender o problema. Reproduzimos interpretações prontas sem conhecer os fatores históricos, econômicos e estratégicos que moldam acontecimentos internacionais.

A verdadeira soberania não se limita à capacidade de um Estado tomar decisões independentes. Ela também depende da capacidade de seus cidadãos analisarem criticamente os fatos, distinguindo informação de propaganda, análise de slogan e complexidade de simplificação.

Ao final da corrida, Cléverton permaneceu em silêncio. Não sei se mudou de opinião. Talvez não.

Mas isso nunca foi o mais importante.

O objetivo daquela conversa não era convencer alguém. Era mostrar que, antes de emitir qualquer julgamento, talvez devêssemos fazer um exercício cada vez mais raro: compreender o tamanho do tabuleiro antes de discutir o movimento das peças.

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Jornalista, Intelectual Público, Pesquisador, Comunicador, Fotógrafo, Professor, Palestrante, Designer e Busólogo.