Entre o Mangue e o Mercado: o que está em disputa no litoral da Barra dos Coqueiros

Mangue preservação ambiental.

De
Pesquisador Paulo Marcelo
Jornalista, Intelectual Público, Pesquisador, Comunicador, Fotógrafo, Professor, Palestrante, Designer e Busólogo.

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Na Barra dos Coqueiros, o avanço de novos empreendimentos à beira-mar tem chamado atenção não apenas pelo crescimento urbano, mas pelo silêncio em torno de seus impactos. O que hoje surge no litoral não representa apenas novas construções, loteamentos ou valorização imobiliária. Representa também uma transformação direta da paisagem natural.

Áreas de restinga, vegetação típica e dominante desse ambiente costeiro, vêm sendo removidas e descaracterizadas para dar espaço a condomínios, ruas, estruturas privadas e novos usos do território.

Essa mudança não acontece de forma isolada. A restinga funciona como proteção natural do litoral, abriga espécies adaptadas a esse ecossistema e também sustenta práticas tradicionais ligadas à coleta da mangaba. Quando essa vegetação desaparece, não se perde apenas um tipo de planta. Perde-se parte de um sistema que conecta biodiversidade, cultura e sobrevivência.

Área desmatada com caminho visível

Mais adiante, o avanço dessas construções se aproxima de áreas de manguezal, um dos ecossistemas mais importantes da região costeira, responsável pela reprodução de diversas espécies, proteção da costa e equilíbrio ambiental.

Entre essas intervenções surgem também estruturas voltadas ao lazer e ao acesso à água, como píeres e acessos privados ao rio, transformando ambientes naturais em extensões de empreendimentos imobiliários.

Foi justamente uma dessas estruturas observadas próxima ao manguezal que despertou os primeiros questionamentos para a reportagem.

O início da investigação

Durante visita ao local no início de maio de 2026, a reportagem observou intervenções próximas ao manguezal e estruturas associadas ao acesso ao rio. Até o dia 03 de maio, não havia no local placas ambientais visíveis com informações claras sobre licenciamento, autorizações ou identificação acessível ao público.

A ausência dessas informações motivou o início da investigação jornalística.

A partir disso, o Vozes365 passou a analisar documentos ambientais, registros públicos e sistemas oficiais relacionados a empreendimentos da Barra dos Coqueiros, buscando compreender como acontecem os processos de licenciamento, quais estudos fundamentam essas intervenções e de que forma a população consegue acessar essas informações.

Tentativas de acesso às informações públicas

Durante a apuração, a reportagem entrou em contato oficialmente com a Secretaria Municipal do Meio Ambiente da Barra dos Coqueiros através do e-mail:

meioambiente@barradoscoqueiros.se.gov.br

Telefone informado pela secretaria:
(79) 99649-8720

Segundo a reportagem, o telefone não obteve atendimento durante o período de apuração.

No dia 06 de maio de 2026, a Secretaria respondeu orientando que o acesso às informações fosse realizado presencialmente.

Optamos por não prosseguir presencialmente porque entende que informações ambientais dessa natureza deveriam estar disponíveis de forma digital, pública e acessível à população, especialmente em processos que envolvem áreas ambientalmente sensíveis.

Parte da documentação utilizada na investigação foi obtida posteriormente através de outra fonte, que preferiu não se identificar.

O empreendimento que despertou os questionamentos

Cais de madeira em área pantanosa.

O ponto inicial da investigação foi o empreendimento da Construcenter Ilha Bela Barra SPE LTDA.

Posteriormente, a empresa encaminhou documentação ambiental à reportagem, incluindo licenças e condicionantes do processo.

Os registros analisados mostram que o empreendimento recebeu:

  • Licença Prévia em 20 de fevereiro de 2026;
  • Licença de Instalação em 18 de março de 2026;
  • Autorização de Supressão de Vegetação em 15 de abril de 2026;
  • Autorização de Captura de Fauna em 22 de abril de 2026.

O intervalo entre a Licença Prévia e a Licença de Instalação foi de apenas 26 dias.

A rapidez do processo chamou atenção da investigação porque a própria licença menciona condicionantes técnicas relevantes envolvendo estudos ambientais, manejo de fauna, drenagem, compensações e anuência de órgãos.

A Licença de Instalação estabelece ainda que as obras somente poderiam avançar após o cumprimento das condicionantes previstas no processo ambiental.

A reportagem também identificou inconsistências formais em parte da documentação acessada, incluindo divergências de referência entre autorizações vinculadas ao processo.

O principal questionamento da investigação

Embora os documentos ambientais analisados pela reportagem mencionem autorizações relacionadas à supressão vegetal, fauna, implantação do empreendimento e condicionantes técnicas gerais, não ficou de forma clara e explícita, nos documentos acessados até o momento, descrição detalhada sobre a intervenção observada próxima ao manguezal nem referência objetiva à estrutura construída sobre a área.

Ponte sobre água em área verde

O mesmo ocorre em relação aos projetos disponibilizados à reportagem. Apesar de apresentarem elementos urbanísticos e estruturais do empreendimento, não foi localizada, de maneira evidente, uma descrição técnica específica tratando da intervenção diretamente associada à área de mangue observada no local.

Até o momento, a reportagem não encontrou nos documentos ambientais acessados menção explícita ao desmatamento de manguezal, à construção de píer sobre a área observada nem detalhamento técnico claro sobre essa intervenção específica.

Esse passou a ser o principal ponto de questionamento da investigação: como intervenções visualmente perceptíveis em uma área ambientalmente sensível aparecem descritas, justificadas e tecnicamente detalhadas dentro do processo oficial de licenciamento ambiental.

A reportagem destaca que a ausência dessa identificação clara nos documentos acessados não significa necessariamente inexistência de autorização, mas reforça a necessidade de transparência pública e acesso integral às informações ambientais relacionadas ao empreendimento.

Comparações com outros empreendimentos

Para entender se a velocidade do processo era um caso isolado ou parte de um padrão administrativo, analisamos também outros empreendimentos da Barra dos Coqueiros.

No caso do empreendimento da Construcenter Park das Mangabeiras SPE LTDA, o sistema público apresenta:

  • Licença Prévia nº 05/2024 emitida em 30 de janeiro de 2024, com validade até 30 de janeiro de 2026;
  • Licença de Instalação emitida em 13 de março de 2024, com validade até março de 2026.
Consulta pública de licenças e situações

A reportagem identificou ainda que, embora o sistema registre a existência das licenças, os documentos completos assinados não aparecem disponíveis para download público, dificultando o acesso da população às condicionantes e estudos ambientais relacionados ao processo.

Outro empreendimento analisado foi o da San Diego Empreendimentos Imobiliários.

Comparação entre San Diego e Ilha Bela

Diferentemente do caso anterior, o processo apresenta uma tramitação mais longa entre as etapas ambientais, com períodos maiores de análise e documentação ainda em andamento, segundo os registros consultados pela reportagem.

As diferenças entre os processos não permitem concluir irregularidades ou favorecimentos. Mas levantam questionamentos sobre critérios de tramitação, padronização dos processos, transparência documental, acesso público às informações e capacidade de fiscalização social.

O que está em disputa além das obras

Para a professora doutora Myrna Landim, pesquisadora da área ambiental, o problema vai além da construção de condomínios.

Segundo ela, os ecossistemas naturais da região vêm sendo “extremamente afetados” e, no caso das restingas, “praticamente eliminados”.

A pesquisadora destaca que a restinga não representa apenas vegetação nativa, mas um ecossistema fundamental para proteção costeira, biodiversidade e manutenção de espécies típicas do litoral sergipano.

Ela também chama atenção para o impacto social da expansão imobiliária sobre comunidades tradicionais ligadas à coleta da mangaba, fruto símbolo de Sergipe.

“A biodiversidade e os modos de vida que dependem desses territórios estão sendo alterados e impactados”, afirma.

Área verde com palmeiras e rio

Outro ponto levantado pela pesquisadora é a forma como grandes condomínios fechados alteram a relação entre cidade, população e acesso ao litoral.

Segundo Myrna Landim, muitos desses empreendimentos acabam funcionando como espaços isolados da dinâmica urbana tradicional, dificultando a democratização do acesso a ambientes públicos como praias e rios.

Em um dos trechos mais contundentes da entrevista concedida à reportagem, a pesquisadora afirma:

“Mesmo que determinados empreendimentos estejam legais, a questão é se eles são desejáveis em uma sociedade.”

O debate que permanece

Rio rodeado por vegetação exuberante

A investigação não busca discutir apenas legalidade.

O debate principal talvez seja outro: que tipo de litoral está sendo construído na Barra dos Coqueiros?

Um modelo baseado apenas na expansão imobiliária e no acesso privado às áreas naturais? Ou um modelo capaz de equilibrar crescimento urbano, preservação ambiental e acesso coletivo ao território?

Porque quando o território muda, não é apenas a paisagem que se transforma.

É a relação das pessoas com a cidade.
É o acesso aos espaços naturais.
É a permanência das comunidades tradicionais.
E é a própria forma como uma sociedade escolhe se relacionar com seus ecossistemas.

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Jornalista, Intelectual Público, Pesquisador, Comunicador, Fotógrafo, Professor, Palestrante, Designer e Busólogo.