Em um momento em que os debates ambientais costumam ser dominados por indicadores técnicos, relatórios científicos e discussões jurídicas, o Ministério Público Federal em Sergipe promoveu uma iniciativa que inverteu a lógica tradicional desses espaços: colocou no centro do debate aqueles que historicamente convivem, protegem e dependem diretamente dos territórios naturais.
Realizado dentro da programação do Junho Ambiental, o evento “Enquanto a Mata Respira: Povos Tradicionais e o Futuro dos Biomas Sergipanos” reuniu representantes de povos indígenas, comunidades quilombolas, povos de terreiro, pescadores artesanais, marisqueiras, pesquisadores, estudantes, ambientalistas, gestores públicos e instituições parceiras para discutir os desafios da preservação ambiental a partir da perspectiva dos territórios e dos saberes ancestrais.
A iniciativa foi promovida pelo Ministério Público Federal em Sergipe, sob coordenação da procuradora da República Gisele Bleggi Cunha, com apoio de instituições como IBAMA e INCRA, reunindo ainda representantes da academia, movimentos sociais, organizações da sociedade civil e lideranças comunitárias de diversas regiões do estado.
Mais do que um seminário, o encontro transformou o auditório do MPF em um espaço de escuta, diálogo e reconhecimento.
Cultura, ancestralidade e resistência
Um dos aspectos mais marcantes do evento foi a presença de manifestações culturais que representam a diversidade dos povos e comunidades tradicionais sergipanas.
Entre as apresentações estiveram o Toré do povo indígena Xokó, o Toré do povo indígena Kaxagó, o Grupo Afro-Indígena Guerreiros do Maculelê, de Japaratuba, e o Samba de Coco Pé de Serra, da comunidade Mocambo, em Porto da Folha.

Mais do que apresentações artísticas, as manifestações reforçaram uma mensagem central do encontro: a preservação ambiental não pode ser separada da preservação da cultura, da memória e dos modos de vida tradicionais.
Os cantos, danças e expressões culturais apresentados ao longo do dia revelaram a riqueza de conhecimentos construídos ao longo de gerações e demonstraram que a diversidade cultural também é parte do patrimônio ambiental brasileiro.
Desenvolvimento e justiça ambiental
Entre os participantes esteve o vereador de Aracaju Breno Garibalde, que destacou a importância de incluir as comunidades tradicionais nos debates sobre desenvolvimento urbano.
Segundo ele, o crescimento das cidades frequentemente ocorre sem ouvir aqueles que mantêm uma relação histórica com os territórios.
Garibalde chamou atenção para problemas como o aterramento de manguezais e lagoas urbanas e defendeu a construção de um modelo de desenvolvimento capaz de conciliar crescimento econômico, sustentabilidade e respeito aos modos de vida tradicionais.
Para o parlamentar, pescadores, marisqueiras e demais comunidades precisam deixar de ser apenas impactados pelas decisões e passar a participar efetivamente delas.
Os guardiões dos territórios

Representando os povos indígenas comunidade indígena Fulkaxó, Tawanan destacou a importância do reconhecimento das comunidades tradicionais como protagonistas das discussões ambientais.
Em sua fala, ressaltou que a proteção da natureza não beneficia apenas os povos indígenas, mas toda a humanidade.
Segundo ele, cuidar dos rios, das árvores, dos animais e da terra significa preservar a própria vida no planeta.
Ao defender o respeito à natureza e aos diferentes povos que habitam os territórios, Tau Anã reforçou uma visão compartilhada por diversas comunidades tradicionais: a de que a preservação ambiental é uma responsabilidade coletiva e indispensável para as futuras gerações.
Quando as comunidades falam por si mesmas
A ambientalista, ativista e bióloga Dra. Myrna Landim destacou um dos principais diferenciais da iniciativa promovida pelo MPF.
Segundo ela, o evento rompeu com uma prática recorrente em muitos espaços institucionais.
“Normalmente os órgãos governamentais e as instituições acadêmicas falam pelas comunidades tradicionais. Aqui elas estão falando e nós estamos ouvindo.”
Para Myrna, somente a partir dessa escuta respeitosa é possível construir uma gestão ambiental verdadeiramente democrática, plural, inclusiva e sustentável.
Sua fala sintetizou uma das principais contribuições do encontro: reconhecer as comunidades tradicionais não como objeto de estudo, mas como sujeitos ativos na construção das políticas públicas.
Território é identidade

A professora e vereadora Sônia Meira trouxe para o debate uma reflexão sobre a dimensão humana dos territórios.
Segundo ela, quando se fala em direito à terra, muitas vezes a discussão fica limitada aos aspectos jurídicos e fundiários.
No entanto, por trás da luta pelo território estão elementos muito mais profundos relacionados à identidade, à memória, à ancestralidade e à preservação da vida.
Sônia destacou que assegurar os direitos territoriais dessas comunidades significa garantir condições para que seus modos de vida continuem existindo e para que os conhecimentos tradicionais possam ser transmitidos às futuras gerações.
Para a professora, proteger territórios é também proteger culturas, histórias e formas de compreender o mundo.
Representatividade e pertencimento
A pesquisadora e educadora Dra. Eleonora Vaccarezza ressaltou a importância de espaços que promovam o diálogo entre instituições públicas, universidades e comunidades tradicionais.

Para ela, a valorização desses grupos passa também pelo reconhecimento de suas experiências, de seus saberes e de sua contribuição histórica para a formação da sociedade brasileira.
Sua participação reforçou a necessidade de ampliar a representatividade dessas populações nos espaços de debate e construção das políticas públicas, especialmente em temas relacionados ao meio ambiente, ao território e aos direitos humanos.
O papel do Ministério Público Federal

Ao encerrar o encontro, a procuradora da República Gisele Bleggi Cunha reforçou uma ideia que atravessou toda a programação: não é possível discutir meio ambiente sem discutir os povos e comunidades tradicionais.
Há mais de quinze anos atuando junto a povos originários, indígenas e comunidades tradicionais, a procuradora destacou que essas populações sempre estiveram entre os públicos prioritários de sua atuação institucional.
“Eu não vejo o meio ambiente desatrelado dos povos e comunidades tradicionais.”
Segundo Gisele, essas comunidades são verdadeiras guardiãs dos biomas brasileiros, responsáveis por práticas de preservação construídas ao longo de gerações e que permanecem fundamentais para o equilíbrio ambiental.
A procuradora também destacou que o Ministério Público Federal, enquanto instituição responsável pela defesa da sociedade, deve manter suas portas abertas aos grupos mais vulnerabilizados, promovendo não apenas a proteção jurídica de direitos, mas também espaços de participação, diálogo e reconhecimento.
Por essa razão, explicou, o Junho Ambiental não poderia acontecer sem a presença das comunidades tradicionais.
“Num dia de celebração do meio ambiente, nada mais justo do que eles serem os protagonistas da festa.”
A afirmação sintetizou o espírito do encontro e a proposta que orientou toda a programação.
Um encontro de saberes
Acompanhado pelo Vozes365 e pelo portal Isto é Aracaju, o evento demonstrou que os desafios ambientais contemporâneos exigem a aproximação entre diferentes formas de conhecimento.

Pesquisadores, estudantes, lideranças comunitárias, instituições públicas e representantes de povos tradicionais compartilharam experiências e perspectivas sobre temas que vão da preservação ambiental à justiça social.
Como destacou o jornalista Paulo Marcelo durante a cobertura, iniciativas como essa demonstram que aprender também é ouvir, compreender diferentes histórias e reconhecer que existe muito conhecimento fora das salas de aula.
Quando universidades, órgãos públicos e comunidades se encontram em condições de respeito e diálogo, surgem oportunidades reais para a construção de soluções mais inclusivas e sustentáveis.
Um legado para Sergipe
O principal legado do encontro talvez esteja justamente na compreensão compartilhada entre lideranças comunitárias, pesquisadores, estudantes e instituições públicas: não existe preservação ambiental sem valorização das pessoas que historicamente ajudaram a proteger os territórios.
Em tempos de mudanças climáticas, conflitos fundiários e desafios socioambientais cada vez mais complexos, o evento promovido pelo Ministério Público Federal em Sergipe demonstrou que a construção de um futuro sustentável exige mais do que leis e políticas públicas.
Exige escuta.
Exige respeito.
Exige reconhecimento.
Porque enquanto a mata respira, respiram também as culturas, as memórias, os territórios e os povos que ajudam a mantê-la viva.

