Conheço Genésio desde os 15 anos.
Frequentávamos a mesma igreja, conversávamos sobre a vida, trabalho e fé. Política, no entanto, nunca foi um tema presente — muito menos o comunismo. Essa palavra sequer fazia parte do nosso vocabulário cotidiano.
Éramos jovens da igreja Assembleia de Deus, em um contexto marcado mais por imposição do que por escolha. Dependentes dos pais, acabávamos submetidos a situações constrangedoras, muitas vezes por não nos enquadrarmos nos padrões culturais impostos. Com o tempo, veio a autonomia, e com ela o afastamento daquele ambiente, que deixou marcas e também reflexões.
A vida seguiu por caminhos distintos, até que nos reencontramos anos depois, em uma reunião familiar. Genésio, agora com 43 anos, pedreiro, relatava uma trajetória marcada por dificuldades pessoais, passagem por dependência química, casamento, separação e, por fim, retorno à igreja.
O reencontro, no entanto, revelou mais do que mudanças individuais. Revelou uma transformação no próprio campo da conversa.
Em meio ao diálogo, surgiu a pergunta sobre posicionamento político. Ao saber que eu não apoiava Jair Bolsonaro, veio a resposta imediata, acompanhada de riso: “então você é comunista”.
A afirmação, ainda que revestida de aparente leveza, carrega um fenômeno mais amplo: a substituição do debate por rótulos.
A construção de um conceito distorcido
Ao longo das últimas décadas, o termo “comunismo” foi progressivamente esvaziado de seu conteúdo teórico e transformado em instrumento de desqualificação.
Na tradição do pensamento social, o comunismo não se define como sinônimo de ditadura ou pobreza generalizada. Trata-se de uma formulação teórica que emerge como crítica às formas de exploração presentes no sistema capitalista.
No século XIX, Karl Marx desenvolve essa crítica a partir da análise do próprio capitalismo. Em sua principal obra, O Capital, o autor examina as dinâmicas de produção e acumulação de riqueza.
O ponto central dessa análise é a compreensão de que o trabalhador produz valor, mas recebe apenas uma fração desse valor em forma de salário. A diferença entre o que é produzido e o que é pago constitui o lucro — conceito que Marx denomina de mais-valia.
Essa dinâmica não se resume a escolhas individuais, mas configura uma estrutura econômica.
Produção, riqueza e desigualdade
A crítica que dá origem ao pensamento comunista não está baseada na escassez, mas justamente no oposto.
O mundo contemporâneo possui capacidade produtiva suficiente para atender às necessidades básicas da população global. A permanência da pobreza, nesse contexto, não decorre da falta de produção, mas da forma como a riqueza é distribuída.
A lógica predominante orienta a produção para o lucro, e não necessariamente para a satisfação das necessidades humanas.
A proposta teórica do comunismo, nesse sentido, consiste na reorganização da produção social a partir de critérios de necessidade, e não de acumulação.
Experiências históricas e disputas de narrativa
A análise sobre o comunismo frequentemente é reduzida a exemplos históricos apresentados de forma isolada.
Países como Cuba, por exemplo, são constantemente citados sem a devida consideração de fatores externos, como o embargo econômico imposto há mais de seis décadas. Ainda assim, o país apresenta indicadores relevantes em áreas como saúde e educação.
De forma semelhante, a União Soviética, partindo de uma base agrária fragilizada, alcançou rápida industrialização e teve papel decisivo na derrota do nazismo.
Já a China, ao longo do século XX, implementou políticas que resultaram na retirada de centenas de milhões de pessoas da pobreza.
Esses processos, evidentemente, não ocorreram sem contradições ou erros. Lideranças como Joseph Stalin são objeto de críticas importantes, especialmente no que se refere a práticas autoritárias. No entanto, tais experiências também se desenvolveram em contextos de guerra, bloqueios econômicos e disputas geopolíticas intensas.
Comparações e simplificações
Uma das afirmações mais recorrentes no debate público é a de que “o comunismo matou mais que o nazismo”.
Essa comparação, no entanto, carece de precisão analítica.
O Nazismo constituiu um projeto explícito de extermínio, com base em critérios raciais e ideológicos.
Já no caso do comunismo, frequentemente são agregados eventos distintos — guerras, crises alimentares, disputas políticas — como se fossem decorrência direta de uma única causa.
Se o critério de análise for ampliado para sistemas econômicos, é necessário considerar também os impactos históricos do capitalismo, incluindo escravidão, colonialismo, genocídios e conflitos armados associados à expansão de mercados e recursos.
Para além dos rótulos
O uso indiscriminado de termos como “comunista” revela menos sobre a teoria em si e mais sobre o estado atual do debate público.
Quando conceitos complexos são reduzidos a slogans, o espaço para reflexão é substituído por polarização.
O resultado é o empobrecimento do diálogo e a dificuldade crescente de construção de entendimento, mesmo entre pessoas que compartilham trajetórias comuns.
Conclusão
O problema central não reside na discordância de ideias, mas na ausência de compreensão sobre aquilo que se critica.
Antes de rejeitar qualquer conceito, é necessário conhecê-lo em sua formulação original e em sua complexidade histórica.
Caso contrário, o debate deixa de ser um exercício de pensamento e passa a ser apenas a repetição de narrativas prontas.
E, nesse cenário, o verdadeiro prejuízo não é de uma ideologia específica, mas da própria capacidade de diálogo na sociedade.
