Condenado pelo STF, confessor perante a lei, rejeitado nas urnas em Aracaju e, ainda assim, peça chave nos conchavos e candidato audaz ao Senado em 2026. A história de André Moura expõe a esquizofrenia moral da política sergipana.
Os Fatos São Claros
Setembro de 2021: O STF condena André Moura a 8 anos e 3 meses por peculato e associação criminosa.
2023: Ele assina um Acordo de Não Persecução Penal com a PGR. Pela lei, Art. 28 A do CPP, isso exige confissão formal.
Consequência: Extingue se a punibilidade, mas NÃO se apaga a condenação nem a confissão.
O roteiro parece impossível: um homem é condenado pela mais alta corte do país por desviar dinheiro público para gastos pessoais. Anos depois, confessa o crime por escrito para obter um benefício legal. Na sequência, sua herdeira política é derrotada de forma clara na maior cidade do estado. O final lógico seria o ostracismo. Em Sergipe, porém, a lógica é um detalhe.
Aqui, esse homem, André Moura, não só permanece como um dos homens mais influentes do estado, como tece alianças nos bastidores e mira, audaciosamente, uma vaga no Senado Federal em 2026. Sua trajetória é menos uma biografia e mais um sintoma grave de como a política local opera em duas realidades paralelas: uma da lei e dos fatos, outra do poder e da conveniência.
A Rejeição das Urnas e a Sedução dos Palácios
Em 2020, a população de Aracaju deu uma lição de discernimento. Yandra Moura, filha de André e candidata a prefeita, foi batida nas urnas. O resultado foi um plebiscito informal contra o sobrenome e os métodos que ele representa. Nas ruas, a mensagem foi não.
Nos gabinetes, porém, o sinal é verde. Moura segue sendo um negociador necessário, um articulador cujo peso eleitoral e rede de influência são commodities valiosas no mercado de apoios. A derrota da filha na Ágora, a praça pública, pouco importa no Olimpo, os salões do poder, onde se pratica a arte do conchavo. A política sergipana, assim, vive sua própria esquizofrenia: rejeita na urna e abraça na surdina.
A Ambição que Desafia a Lei
O próximo capítulo desse enigma está escrito: 2026. Moura não se contenta em ser um poder nos bastidores; ele quer o holofote do Senado. O plano é audacioso e gera um impasse cívico: como pode aspirar a uma das mais altas funções de representação alguém que carrega a marca de um crime confessado contra o erário?
O risco jurídico é real. A condenação pelo STF, ainda que sem efeitos punitivos após o acordo, permanece como um fato jurídico indelével. Ela pode se tornar uma barreira intransponível, um trunfo nas mãos de adversários e um teste para a lisura da Justiça Eleitoral. Sua campanha, portanto, não será apenas política; será uma batalha para ressignificar o passado, transformando confissão em perseguição e condenação em erro judicial.
O Espelho de Sergipe e a Sombra dos Filósofos
Este caso vai além de um político. Ele funciona como um espelho distorcido, mas revelador, de Sergipe. Nele, vemos refletida a velha máxima de que o poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente, mas com um tempero local: o poder conchavado não só corrompe, como também reabilita, normaliza e segue em frente.
Os gregos antigos, fundadores do pensamento político ocidental, já debatiam esses abismos. Platão temia a degeneração da democracia na demagogia, onde a aparência vence a verdade. A estratégia de Moura, negar a confissão pública após assiná la judicialmente, é um manual prático desse risco. Aristóteles via a política como a busca pela vida boa em comunidade, fundada na ética. O que há de bom ou ético em um sistema que não isola, mas celebra, quem violou a confiança pública?
A pergunta final que a sociedade sergipana precisa enfrentar é, portanto, filosófica e prática: Que tipo de cidade Estado queremos ser? Aquela que, como a Atenas de Sócrates, preza pelas leis e pela verdade, mesmo quando é inconveniente? Ou aquela que, na ânsia pelo poder imediato, faz pactos com qualquer sombra, desde que ela entregue votos?
O enigma Moura não é sobre um homem. É sobre quem somos e o que estamos dispostos a aceitar. Enquanto a confissão dele for tratada como mera anotação em um processo, e não como uma linha ética intransponível, Sergipe estará condenada a repetir sua própria tragédia, não nas páginas da Justiça, mas no palco da história que está escrevendo agora.

