Enquanto a sociedade depende do transporte para funcionar, pouco se fala sobre quem sustenta esse movimento com o próprio corpo, tempo e saúde mental. Motoristas de transporte rodoviário, entregadores, caminhoneiros e profissionais da logística vivem sob jornadas extensas, pressão por prazos, isolamento social, noites mal dormidas e alta responsabilização por riscos que nem sempre controlam.
Nesse cenário, o uso de álcool e outras drogas não surge do nada. Ele aparece, muitas vezes, como tentativa de suportar o insuportável, manter-se acordado, reduzir a ansiedade, anestesiar o cansaço ou silenciar o sofrimento. Rebites, estimulantes, álcool e outras substâncias passam a funcionar como estratégia de sobrevivência em um sistema que exige produtividade contínua e oferece pouco cuidado.
Falar de drogas no universo do trabalho não é moralizar comportamentos. É falar de saúde mental, condições laborais e responsabilidade coletiva.
O modelo biopsicossocial: por que não se trata de falha individual
Reduzir o uso de álcool e outras drogas a uma “falta de caráter” ou “desvio individual” é um erro conceitual e ético. A Psicologia e a Saúde Coletiva já demonstraram que o uso de substâncias deve ser compreendido a partir do modelo biopsicossocial.
Isso significa reconhecer que:
- O biológico envolve o corpo exausto, a privação de sono, a dor física, os efeitos das substâncias e a dependência química.
- O psicológico inclui estresse crônico, ansiedade, solidão, sofrimento psíquico, sensação de desamparo e baixa percepção de apoio.
- O social atravessa jornadas abusivas, precarização do trabalho, metas inalcançáveis, medo do desemprego, ausência de políticas de cuidado e uma cultura que normaliza o adoecimento.
Quando ignoramos esse tripé, transferimos para o indivíduo a culpa por um problema que é estrutural. No setor de transporte, essa lógica é ainda mais perversa: exige-se atenção máxima, mas oferece-se condições mínimas de cuidado.
Prevenção não é punição: é política pública e responsabilidade institucional
Historicamente, muitas empresas e instituições lidaram com o tema das drogas no trabalho a partir da lógica do controle e da punição: exames toxicológicos, afastamentos compulsórios e estigmatização. Essa abordagem, além de pouco eficaz, afasta trabalhadores do cuidado e empurra o problema para a invisibilidade.
A prevenção efetiva passa por outro caminho:
- acesso a suporte psicológico contínuo;
- ações educativas que não sejam moralizantes;
- construção de ambientes de trabalho mais humanos;
- políticas de acolhimento e escuta qualificada.
A própria Lei 8.080/1990, que institui o Sistema Único de Saúde (SUS), reconhece o trabalho como um dos determinantes sociais da saúde. Isso significa que adoecer no trabalho não é acidente individual, mas resultado de condições sociais que precisam ser enfrentadas coletivamente.
Nesse sentido, as políticas de redução de danos são fundamentais. Elas partem do princípio de que cuidar é mais eficaz do que punir, e que proteger a vida vem antes de qualquer lógica disciplinar. Redução de danos não incentiva o uso de drogas; ela reconhece a complexidade do fenômeno e busca minimizar riscos, ampliar vínculos e promover saúde.
O papel da/o psicóloga/o: entre a estrada e o cuidado
A/O psicóloga/o ocupa um lugar estratégico nessa interface entre saúde e trabalho. Não como fiscal de condutas, mas como mediadora, capaz de articular escuta clínica, leitura institucional e compromisso ético.
Atuar nesse campo é:
- compreender o sofrimento para além do sintoma;
- tensionar práticas excludentes;
- construir estratégias de prevenção e cuidado;
- defender políticas públicas baseadas em direitos humanos.
Humanizar as estradas passa, necessariamente, por humanizar as relações de trabalho. Enquanto tratarmos o uso de álcool e outras drogas apenas como problema individual, continuaremos ignorando o cansaço, a solidão e a violência simbólica que atravessam o cotidiano desses profissionais.
Falar de saúde mental sobre rodas é falar de escolhas políticas.
E escolher cuidar é sempre um ato coletivo.
