E esses dias eu vivi uma situação que explica tudo isso na prática.
Entrei num Uber… e começou aquela conversa.
O motorista defendendo privatização com tudo. Disse que era contra regulamentar as big techs porque isso ia gerar mais imposto e menos lucro pra ele.
Até aí, ok. É o pensamento de muita gente hoje.
Mas aí ele soltou uma que me chamou atenção: disse que ser motorista de Uber é profissão.
E foi aí que eu falei: “cara, deixa eu te explicar uma coisa…”
Isso não é exatamente uma profissão. É uma ocupação autônoma. Sem garantia, sem proteção, sem direito trabalhista.
E o mais curioso é que ele tava defendendo exatamente o modelo que deixa ele mais vulnerável… sem perceber.
Porque pra entender isso, a gente precisa falar de uma coisa: neoliberalismo.
Entender o que é Estado mínimo, precarização e a lógica privatista faz toda a diferença.
A gente tá aqui pra descomplicar. Eu não me vejo como professor, não. Eu me vejo como um explicador.
Então vamos lá: o que é neoliberalismo?
Neoliberalismo é uma ideologia — e sim, uma ideologia nefasta — que defende o Estado mínimo e a mercantilização dos direitos sociais.
Na prática, significa o quê?
Que o Estado deixa de garantir direitos básicos e passa a tratar tudo como mercadoria: saúde, educação, moradia… tudo vira produto.
E aí entra uma contradição interessante.
Quando se fala em cortar gastos, nunca se fala em mexer nos privilégios do Congresso, nas pensões históricas, em taxar bilionários ou combater a sonegação fiscal.
Só no último ano, o Brasil deixou de arrecadar centenas de bilhões por conta de sonegação. Mas isso não entra na conta.
Quando a gente fala de “burguesia” no Brasil, muitas vezes estamos falando de uma elite rentista, que vive de especulação e não investe no país. Isso é muito bem explicado por Jessé Souza no livro A Elite do Atraso.
No fundo, o neoliberalismo faz três coisas:
criminaliza o Estado,
vende o patrimônio público
e transforma direitos em mercadoria.
Um dos grandes nomes desse modelo foi Ronald Reagan, nos anos 80.
A lógica era simples: o Estado não deveria mais arcar com a saúde da população. Quem pode pagar, paga. Quem não pode… que evite ficar doente.
Parece absurdo. Mas essa lógica ainda está viva.
E aí vem outra ilusão comum.
Muita gente olha pros Estados Unidos e se encanta: carro mais barato, tênis mais barato, consumo mais fácil.
Mas deixa eu te perguntar: de que adianta pagar mais barato num produto, se, quando você adoece, precisa hipotecar sua casa pra se tratar?
Lá, uma internação pode virar dívida de anos. Um braço quebrado vira boleto. Um atendimento médico vira financiamento.
Isso é a mercantilização da saúde.
No Brasil, esse modelo começa a ganhar força com Fernando Collor de Mello, no início dos anos 90.
Mas quem consolida mesmo é Fernando Henrique Cardoso.
Privatizações, precarização do trabalho, desindustrialização.
O Estado passa a ser visto como problema, não como solução.
E é daí que nasce aquela ideia que a gente escuta até hoje: “tudo que é público não presta”.
Só que quando você privatiza, entra outra lógica: a do lucro.
E pra aumentar lucro, muitas vezes se reduz qualidade, se corta serviço, se exclui quem não pode pagar.
E aí aparece aquela falsa escolha:
“ou você tem direitos, ou você tem emprego”.
Mas isso não é escolha. É chantagem.
Historicamente, o Brasil teve outro caminho, defendido por nomes como Getúlio Vargas, Leonel Brizola e João Goulart, que viam o Estado como indutor do desenvolvimento.
O neoliberalismo rompe com isso.
Abre a economia sem proteção, enfraquece a indústria e transforma o país em exportador de matéria-prima.
No fim das contas, não é só economia.
É uma visão de mundo.
Uma visão que amplia desigualdade, enfraquece o Estado e transforma direitos em privilégio de quem pode pagar.
E foi isso que eu tentei explicar naquele carro.
Porque quando você entende isso…
você não só escuta opinião — você começa a enxergar o jogo.
