Quando a memória perde espaço: reflexões sobre o antigo fórum de Maruim

Um século de história esquecido à vista de todos

De
Pesquisador Paulo Marcelo
Jornalista, Intelectual Público, Pesquisador, Comunicador, Fotógrafo, Professor, Palestrante, Designer e Busólogo.

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Do quadro Histórias e Memórias, hoje em Maruim.

Chegar até esse prédio não foi só um encontro com a imagem, foi também um encontro com a ausência de informação. Existe muito pouco registro acessível sobre o antigo Fórum Dr. Alberto Deodato na internet, quase como se ele tivesse sido apagado não só fisicamente, mas também da própria narrativa digital da cidade. E talvez isso diga tanto quanto o estado em que ele se encontra hoje.

Foi justamente nesse vazio que surgiu algo fundamental: a pesquisa. Foi através do trabalho de Marília Marques Cruz Silva Accioly, no estudo Patrimônio histórico e memória urbana em Maruim/SE, que essas informações começaram a aparecer com mais clareza. E isso não é um detalhe pequeno. É a prova de como investir em pesquisa, em universidade pública e em produção de conhecimento ainda é uma das formas mais importantes de preservar a memória de um lugar.

A partir desse trabalho, esse prédio deixa de ser apenas uma construção antiga e passa a ter contexto, tempo, história.

Construído em 1902, ele já foi escola, já foi espaço de formação, já foi fórum. Durante décadas, concentrou ali funções que moldam qualquer sociedade: educar e julgar. Gente entrou por essas portas para aprender, para ensinar, para decidir rumos, para buscar respostas. Era um espaço vivo, integrado ao cotidiano da cidade, carregado de significado.

Hoje, o que chama atenção não é só a estrutura, mas o silêncio. Um silêncio que não é natural, mas construído. Porque lugares assim não se esvaziam sozinhos. Eles vão sendo deixados de lado aos poucos, vão perdendo prioridade, vão saindo do centro das decisões, até que passam a existir apenas como paisagem — e nem sempre como uma paisagem que incomoda.

Mas incomoda.

E talvez incomode justamente porque, quando a gente olha com atenção, percebe que não é só um prédio que está ali. É uma sequência de histórias que ajudaram a construir Maruim. É um tempo que ainda insiste em permanecer, mesmo sem cuidado, mesmo sem manutenção, mesmo sem visibilidade.

Eu sempre tive uma relação muito forte com monumentos históricos porque eles carregam esse tipo de permanência. Eles não desaparecem facilmente, mas também não sobrevivem sozinhos. Precisam de olhar, de reconhecimento, de algum nível de compromisso coletivo para continuarem fazendo sentido.

E quando esse compromisso falha, o que sobra é esse tipo de cena: um lugar que já foi central se tornando periférico, um espaço que já teve função se tornando esquecido, uma memória que continua ali, mas cada vez menos acessada.

O mais curioso é que, mesmo assim, ele ainda fala. Mesmo abandonado, ainda comunica. Não de forma direta, não com placas explicativas, não com roteiros turísticos, mas com presença. Com aquilo que resiste.

E talvez seja por isso que registrar esse tipo de espaço ainda seja necessário. Não como um gesto nostálgico, mas como uma tentativa de manter essa memória em circulação. Porque quando a gente fala sobre, quando a gente escreve, quando a gente associa imagem e contexto, a gente cria uma ponte entre o que foi e o que ainda pode ser lembrado.

Esse texto, inclusive, é parte disso. Ele nasce de uma pesquisa que já existe, que foi construída com método, com estudo, com dedicação, e que agora ganha uma nova camada ao circular por outros espaços, por outras linguagens, por outras formas de alcance.

É assim que a memória se sustenta: não parada, mas em movimento.

E talvez esse seja o ponto mais importante ao olhar para o antigo Fórum Dr. Alberto Deodato. Ele ainda está de pé. Ainda ocupa espaço. Ainda carrega história suficiente para não ser ignorado.

Mas depende de quem olha.

Depende de quem registra.

Depende de quem entende que preservar não é só restaurar paredes, é também manter viva a narrativa que esses lugares carregam.

Porque quando a história deixa de ser contada, o abandono não é só físico.

Ele vira esquecimento.

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Jornalista, Intelectual Público, Pesquisador, Comunicador, Fotógrafo, Professor, Palestrante, Designer e Busólogo.