Paulo Freire “acabou com a educação”, dizem por aí…Mas, lá fora, é reverenciado pelo mundo.

Paulo Freire patrono da educação

De
Pesquisador Paulo Marcelo
Jornalista, Intelectual Público, Pesquisador, Comunicador, Fotógrafo, Professor, Palestrante, Designer e Busólogo.

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Outro dia, ouvindo fala do meu tio Claudionor, ele soltou, com aquela segurança de sempre, que o problema da educação no Brasil tinha nome: Paulo Freire. Disse que era ideologia, que era doutrinação, que isso tinha “acabado com a educação”.

Não era a primeira vez que eu ouvia isso. Na verdade, essa fala já virou quase um senso comum em certos espaços. Ela aparece em conversa de bar, em rede social, em comentário rápido, sempre com o mesmo tom de certeza.

E o que mais me chamou atenção não foi nem a crítica em si.

Foi a familiaridade dela.

Como se fosse algo já resolvido. Como se não precisasse mais ser explicado.

Eu fiquei olhando aquilo e pensando em silêncio.

E a única coisa que me veio foi uma pergunta simples:

quantas dessas pessoas que repetem isso já leram, de fato, alguma coisa de Paulo Freire?

A resposta, quase sempre, não aparece.

E foi a partir desse incômodo que eu resolvi fazer um caminho diferente.

Não discutir a opinião.

Mas entender a história.

Paulo Freire nasceu em Recife, em 1921. Um Brasil que, naquele momento, era marcado por desigualdades profundas, sobretudo no acesso à educação. Aprender a ler não era uma etapa comum da vida — era um privilégio restrito a poucos.

Filho de um capitão da Polícia Militar e de uma dona de casa, ele cresceu num ambiente simples, mas não distante das dificuldades que marcavam a maior parte da população brasileira. Ainda jovem, viveu de perto os efeitos da crise econômica dos anos 1930. A fome, inclusive, não foi uma abstração na vida dele — foi experiência concreta.

E talvez isso ajude a entender por que, mais tarde, ele não trataria a educação como algo neutro.

Porque, pra quem já sentiu na pele o que é estar à margem, aprender não é só acumular conteúdo. É ganhar ferramenta.

Em 1943, ingressou na então Universidade do Recife para estudar Direito. Era um caminho tradicional, seguro, socialmente valorizado. Mas não foi por ali que ele seguiu.

O interesse dele estava em outro lugar.

Na linguagem.

Na forma como as pessoas se expressam… e, principalmente, na forma como são silenciadas.

Ele se aproximou da filosofia da linguagem, estudou, leu, refletiu — mas sempre com um pé na realidade concreta. Não era um intelectual isolado da vida. Pelo contrário. Era alguém tentando entender como o conhecimento se conecta com o cotidiano das pessoas comuns.

Acabou se tornando professor de língua portuguesa.

E foi ali, no contato direto com alunos, que começou a perceber uma coisa fundamental:

não basta ensinar alguém a juntar letras… se essa pessoa não consegue se reconhecer no que está lendo.

Naquele Brasil das décadas de 1950 e 60, milhões de adultos eram analfabetos. E isso não era só uma questão educacional. Era política, social, econômica.

Uma pessoa que não sabe ler não acessa plenamente seus direitos. Não compreende contratos, não acompanha decisões, não participa de forma ativa da vida pública.

Ela existe… mas à margem.

E foi nesse contexto que o trabalho de Paulo Freire começou a ganhar forma.

Ele desenvolveu uma proposta de alfabetização que partia da realidade do aluno. Em vez de palavras soltas, desconectadas, ele trabalhava com termos do cotidiano — aquilo que fazia sentido pra quem estava aprendendo.

Mas o ponto central não era só esse.

Era o que vinha junto.

Porque, ao aprender a ler aquelas palavras, a pessoa também começava a entender melhor o mundo em que vivia.

E isso muda tudo.

Em 1963, na cidade de Angicos, no Rio Grande do Norte, esse método foi colocado em prática de forma mais estruturada.

Cerca de 300 trabalhadores rurais foram alfabetizados em aproximadamente 40 horas.

O número impressiona.

Mas o impacto vai além.

Porque não era só sobre ler e escrever.

Era sobre perceber.

Perceber relações de trabalho, perceber desigualdades, perceber possibilidades.

E quando muita gente começa a perceber ao mesmo tempo… a estrutura sente.

Naquele momento, o Brasil vivia um cenário político tenso. Reformas de base estavam em discussão, e a alfabetização em larga escala passou a ser vista como parte desse processo de transformação.

Foi criado um plano nacional que pretendia expandir essa metodologia pelo país.

Mas esse movimento foi interrompido.

O Golpe Militar de 1964 mudou completamente o rumo da história.

O projeto foi desfeito.

E Paulo Freire foi preso.

A justificativa era clara dentro da lógica daquele momento:

subversão.

A palavra pode parecer exagerada à primeira vista.

Mas ela revela muito.

Porque, no fundo, a questão nunca foi apenas ensinar alguém a ler.

Foi o que acontece depois que essa pessoa aprende.

Uma população que entende melhor o mundo tende a questionar mais.

E questionamento nunca foi bem-vindo em contextos autoritários.

Após ser libertado, ele foi para o exílio. Passou pela Bolívia, depois pelo Chile, onde seu trabalho encontrou espaço em programas ligados à educação e à reforma agrária.

Mais tarde, seguiu para os Estados Unidos, onde lecionou na Universidade de Harvard.

E depois para a Suíça, atuando junto a organismos internacionais.

Durante esse período, também colaborou com países africanos que estavam saindo do processo de colonização, ajudando na construção de sistemas educacionais.

Ou seja: enquanto era visto como problema em seu próprio país, era reconhecido como referência em vários outros.

Foi também no exílio que escreveu uma de suas obras mais conhecidas: Pedagogia do Oprimido.

O livro circulou pelo mundo, foi traduzido para diversas línguas e se tornou uma das referências mais citadas nas ciências sociais.

Mas, curiosamente, no Brasil, por muito tempo, ele foi mais citado por quem criticava do que por quem lia.

A crítica central que ele fazia ao modelo tradicional de ensino era o que chamou de “educação bancária”.

A ideia de que o professor deposita conteúdo no aluno, como se ele fosse um recipiente vazio.

Sem diálogo.

Sem troca.

Sem construção.

Em oposição, ele defendia uma educação baseada na participação, na escuta, na reflexão.

Uma educação que não entrega tudo pronto.

Mas provoca.

Com o fim da ditadura e o processo de redemocratização, Paulo Freire retornou ao Brasil em 1980.

Voltou a atuar como professor, se envolveu com políticas públicas e, anos depois, assumiu a Secretaria de Educação da cidade de São Paulo.

Seu nome já era reconhecido internacionalmente.

Mas, internamente, continuava sendo alvo de disputas.

Ele faleceu em 1997.

E, anos depois, foi oficialmente declarado patrono da educação brasileira.

Um reconhecimento institucional.

Mas que não encerrou o debate.

Porque, de alguma forma, o nome dele continua sendo acionado sempre que a educação entra em discussão.

Às vezes como referência.

Às vezes como alvo.

E talvez isso diga mais sobre o presente do que sobre o passado.

Porque, no fim das contas, a pergunta que ficou lá no começo continua ecoando.

Não sobre quem ele foi.

Mas sobre o que incomoda.

Talvez não seja a figura.

Nem o método, isoladamente.

Talvez seja a ideia de uma educação que não se limita a ensinar… mas que permite compreender.

E quem compreende, inevitavelmente, começa a enxergar o mundo de outro jeito.

E isso… nunca foi neutro.

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Jornalista, Intelectual Público, Pesquisador, Comunicador, Fotógrafo, Professor, Palestrante, Designer e Busólogo.