A placa instalada no Porto da Zenza, no bairro Mosqueiro, povoado Areia Branca, informa que a Prefeitura de Aracaju executa uma obra de infraestrutura urbana iniciada em 28 de novembro de 2024, com prazo contratual de 20 meses e valor de R$ 64.941.847,28, financiada com recursos do New Development Bank (NDB), o banco dos BRICS. A execução está a cargo do Consórcio Heca Terral Infra Zona de Expansão, sob fiscalização da Empresa Municipal de Obras e Urbanização (Emurb).
Na teoria, trata-se de um investimento de grande porte, associado ao discurso de modernização urbana e de melhoria das condições de vida da população. Na prática, porém, o que se observa em diversos trechos afetados pela obra é um choque entre o planejamento técnico e a rotina de quem vive no território.

A equipe do Vozes365 esteve no local para verificar as denúncias feitas por moradores. Entre pescadores e residentes da região do Porto da Zenza, observa-se o reconhecimento da importância das intervenções. Um deles resumiu esse sentimento por meio de uma metáfora popular: “não existe omelete sem quebrar alguns ovos”. A frase expressa a compreensão de que obras geram transtornos temporários. O problema, segundo os próprios moradores, não está na realização da obra, mas na forma como ela vem sendo executada.
A principal preocupação relatada é com a segurança. “Se alguém passar mal aqui, como vai sair?”, questiona uma moradora, ao observar a via bloqueada por veículos e materiais da obra. O receio não se limita ao incômodo momentâneo, mas envolve risco físico e possíveis danos estruturais às casas.
Em conversa com funcionários que atuam na obra, foi informado que há mais de uma empresa trabalhando simultaneamente no trecho visitado, o que indica a existência de pressão para o cumprimento do prazo contratual. Essa urgência tem se refletido diretamente no cotidiano da comunidade, com pouca comunicação prévia, ocupação do espaço em frente às residências por máquinas e materiais pesados, em alguns casos dificultando ou impedindo o acesso às casas, além da ausência de organização adequada no entorno dos imóveis.

No dia 28 de janeiro, uma moradora registrou em vídeo e fotografias a situação em frente à própria residência. Segundo o relato, máquinas operavam encostadas ao muro, manilhas de grande porte foram empilhadas rente à casa, um caminhão permaneceu bloqueando a passagem e houve tremores perceptíveis na estrutura do imóvel. A moradora também aponta a destruição de uma árvore, danos na calçada, no portão e no muro, além da presença de manchas de óleo no solo. De acordo com ela, não houve aviso prévio nem orientação antes da intervenção.
Além da residência diretamente afetada, os registros feitos no local mostram supressão de vegetação, acúmulo de entulho e ausência de isolamento adequado da área. Em vez de representar apenas uma promessa de melhoria futura, a obra passa a ser percebida, ao menos naquele trecho, como fator de insegurança imediata.
O episódio levanta um questionamento social inevitável: se essa mesma intervenção estivesse sendo executada em um bairro de alto padrão, o procedimento adotado seria o mesmo? Haveria aviso prévio, tapumes, sinalização adequada e proteção das residências? Haveria diálogo com os moradores? Ou esse tipo de transtorno é tratado como aceitável apenas porque ocorre em uma área habitada majoritariamente por trabalhadores e famílias de baixa renda?

A crítica apresentada pelos moradores não é contra o investimento público nem contra a obra em si, mas contra a maneira como ela vem sendo executada. A população cobra diálogo, organização do canteiro de obras e planejamento responsável das frentes de trabalho, de modo a evitar que o incômodo se prolongue por dias ou semanas na mesma rua. Também reivindica garantias reais de que casas, muros e estruturas não sejam colocados em risco durante a execução dos serviços.
Entre o projeto anunciado na placa e a realidade vivida pelos moradores do Porto da Zenza, há um descompasso que precisa ser enfrentado. A obra é pública, os recursos são públicos e o impacto também recai sobre quem vive no entorno.
Além dos transtornos imediatos, muitos moradores demonstram preocupação com as possíveis consequências ambientais, especialmente para o rio e para as famílias que dele dependem para sobreviver.
Empreendimentos dessa magnitude não podem ser impostos sem diálogo. Devem ser discutidos democraticamente com a sociedade, sobretudo com quem vive nos territórios diretamente afetados.
O desenvolvimento urbano não pode significar ausência de diálogo nem desconsideração pela vida cotidiana da população. O progresso, para ser legítimo, precisa incluir quem mora no território. Caso contrário, corre o risco de ser percebido não como melhoria, mas como imposição.

