Apesar de, em si, contrariar o método científico, generalizar facilita as coisas para cabeças lineares que gostam muito de regras universais sempre aplicáveis. As exceções, os matizes, atrapalham o pensamento plano. A generalização seduz quem se sente pouco à vontade com o real e busca um nicho onde descansar sua angústia.
O que é preconceito?
Ler sobre preconceito é desmanchar uma trama densa, um enredo que envolve a todos nós desde a infância. Todos nós ouvimos piadas, identificamos práticas, músicas, exclusões, louvores de determinados modelos que acabaram sendo tão universais e tão fortes que a gente até perde a noção de que aquilo é absolutamente preconceituoso. E ele se manifesta de formas profundas e antigas: na misoginia, o mais antigo na história humana; no racismo, que estrutura desigualdades há séculos; na LGBTfobia, que transforma amor em pecado; e nos corpos que são marcados, violentados e excluídos por essas marcas.
Se eu quiser constituir um partido, um grupo, uma proposta de tomada do poder, preciso achar um elemento de união, um atrator que faça com que todas as muitas diversidades daquele grupo se tornem uma unidade. O caso clássico que todos conhecem é o do nazismo: para reerguer a Alemanha humilhada do pós-Guerra, os nazistas identificaram no judeu a causa da derrota, da pobreza da República de Weimar e até da disseminação da pornografia, como diz Hitler em Mein Kampf. Ou seja, eu vou encontrar no judeu um vetor do mal que, se for eliminado, vai reduzir aquele grupo a uma situação primitiva e harmônica.
O preconceito tem um lugar muito agradável porque é uma forma de identidade. Quando eu segrego, nunca faço isso sozinho. Tenho um grupo por trás de mim. Ao segregar, me incluo no grupo, e o sentimento de pertencimento é absolutamente prazeroso. Ao produzir a figura que contém o mal que atribuo a um grupo ou pessoa, faço com que todos esqueçam suas diferenças e passem a se sentir em comunhão, porque têm um inimigo em comum. Até que, um dia, as agressões verbais se tornam físicas.
Ser vítima e alvo de um preconceito não significa estar liberto de outros. É absolutamente comum que alguém que sofre a violência de discursos e práticas preconceituosas encontre em outras vítimas uma compensação para sua dor. Um homem com a Bíblia debaixo do braço pode ser alvo de comentários negativos; no metrô, encontra dois homens de mãos dadas e os julga; mais adiante, cruza com adeptos de uma religião de matriz africana e emite juízos de desdém. A história está tomada de exemplos de pessoas que, sendo vítimas, continuam desenvolvendo outros preconceitos.
Frutos do mesmo Deus e do mesmo Pai, seríamos todos irmãos. Mas veremos no livro que, muitas vezes, as religiões organizaram discursos de preconceito, práticas de exclusão e discursos de ódio. Com seu poder de fraternidade e sua prática de exclusão, a religião é um fator quase insuperável quando se fala de preconceito.
Ler sobre preconceito é criar consciência. É evitar a exclusão que causa dor a outras pessoas. É, se for o caso de alguém ligado ao mercado, evitar que sua ação empresarial ou seu produto seja associado a uma prática criminosa e preconceituosa. É um ato de resistência.
Projetos de poder sempre escolhem um bode expiatório. Tudo seria perfeito no Brasil se “X” não estivesse.
Eu acredito que há dois caminhos que podem tornar a sociedade mais perfectível na convivência com a diversidade.
O primeiro caminho é o consenso. O consenso é dado pela educação, pelos livros, por campanhas públicas e privadas comprometidas. Tanto o capital das empresas quanto o Estado devem informar cidadãos que pensem sobre o preconceito e que não o exerçam de forma tão declarada e escancarada como vivenciamos hoje. Eu acredito na educação, acredito na mudança. Por quê? Porque pertenço a uma geração que teve que aprender a melhorar sua postura diante do preconceito.
O preconceituoso não é burro — infelizmente, não é isso. O preconceito é muito bem estruturado, perpetuado de geração em geração. Pode mudar de formas, mas é algo que você combate ideologicamente. O ser humano pode ser educado; não seria professor se não acreditasse nisso.
Porém, não sou utópico a ponto de achar que boas campanhas produzirão sozinhas uma melhora. Acho que, ao lado do consenso, tem que existir a coerção.
Consenso educativo, formação constante para melhorar nossa sociedade; e coerção, para deixar bem claro que não é mais uma opção ser racista. Consenso e coerção, dialogando, para que a gente melhore.
Todo mundo. Eu, você, inclusive.

