Não há mulher tão irrelevante no Brasil como Virgínia. A verdadeira força está nas mulheres que sustentam o país com trabalho, pensamento e coragem.

De
Pesquisador Paulo Marcelo
Jornalista, Intelectual Público, Pesquisador, Comunicador, Fotógrafo, Professor, Palestrante, Designer e Busólogo.

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A Revista Veja publicou, em sua editoria Gente, uma entrevista com o atual presidente da Liga das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, neto de um conhecido bicheiro, na qual ele afirma: “Não há mulher tão relevante no Brasil como Virgínia.”

A frase foi utilizada como título da matéria. Em vez de estampar a imagem do entrevistado, a publicação optou por ilustrar o conteúdo com a foto da própria Virgínia, influenciadora digital associada à divulgação de plataformas de jogos de azar. A escolha gráfica e editorial segue um padrão conhecido de atração de cliques, priorizando figuras de alto engajamento nas redes sociais.

O episódio reacende um debate antigo: o papel da mídia na definição pública do que é — e de quem é — relevante no Brasil. Historicamente, veículos de comunicação exercem influência decisiva na formação da opinião pública, ao selecionar temas, personagens e narrativas que ganham visibilidade. Ao mesmo tempo em que criam celebridades, também silenciam vozes e trajetórias que não se encaixam nos modelos de consumo rápido e espetáculo.

Ao longo das décadas, a mídia brasileira construiu heróis, destruiu reputações, criminalizou ideias políticas, normalizou determinados discursos e marginalizou outros. Esse poder simbólico faz com que a relevância social não seja determinada apenas pelo impacto real de uma contribuição, mas pela capacidade de gerar audiência.

Quando uma revista de circulação nacional afirma que a mulher mais relevante do país é uma influenciadora digital ligada à publicidade de apostas, a mensagem simbólica é clara: o valor social feminino estaria associado à estética, à exposição e ao entretenimento — e não à produção intelectual, científica, política ou cultural.

Essa lógica ignora a existência de milhares de mulheres que atuam em áreas estratégicas para o desenvolvimento do país: ciência, educação, saúde, tecnologia, artes e política. São pesquisadoras, professoras, médicas, engenheiras, escritoras, atletas e lideranças sociais que produzem conhecimento, salvam vidas e transformam realidades, mas permanecem fora do radar dos grandes veículos.

Um exemplo é a cientista Tatiana Sampaio, pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Há 28 anos, ela desenvolve estudos voltados à regeneração de conexões neurais em pessoas que perderam os movimentos dos braços e das pernas. Sua equipe identificou uma proteína capaz de restaurar ligações entre neurônios, avanço que pode ter impacto direto no tratamento de casos de tetraplegia.

O trabalho de Tatiana é considerado por especialistas como uma das pesquisas mais promissoras na área de neurociência no país e pode, futuramente, ser reconhecido internacionalmente, inclusive com indicação ao Prêmio Nobel de Medicina. Ainda assim, sua trajetória permanece praticamente desconhecida do grande público.

Em entrevistas, a cientista afirmou:
“Quando uma mulher faz ciência, o incômodo é o fato de ela ocupar um espaço que disseram não ser dela.”

A declaração sintetiza um fenômeno histórico: o apagamento do protagonismo feminino. Ao longo dos séculos, contribuições feitas por mulheres foram atribuídas a pais, maridos, colegas homens ou instituições. Na cultura midiática contemporânea, esse apagamento assume nova forma: a substituição de referências intelectuais por figuras de apelo estético e mercadológico.

Especialistas em comunicação apontam que esse processo não é neutro. Ao priorizar determinados perfis de mulheres — jovens, belas, ligadas ao consumo e à publicidade — a mídia reforça padrões restritivos de valor feminino e desestimula modelos alternativos baseados em autonomia intelectual, produção científica e liderança social.

Dessa forma, mulheres que poderiam servir de referência positiva para meninas e jovens são invisibilizadas. A ausência de cientistas, professoras e pesquisadoras nos espaços de destaque contribui para a manutenção de estereótipos de gênero e para a naturalização da desigualdade simbólica.

O caso da manchete da Veja não é isolado, mas exemplifica uma lógica estrutural: a transformação da relevância social em produto de mercado. Nesse modelo, quem gera cliques importa mais do que quem gera conhecimento.

Diante desse cenário, cresce a necessidade de uma leitura crítica do noticiário e das figuras públicas promovidas pelos grandes veículos. A construção de referências sociais não é apenas um reflexo da realidade, mas uma escolha editorial — e, portanto, política.

Enquanto mulheres que produzem ciência, cultura e pensamento seguem fora dos holofotes, influenciadoras digitais são alçadas à condição de símbolos nacionais. O resultado é um empobrecimento do debate público e uma distorção sobre o que, de fato, deveria ser considerado relevante em uma sociedade.

Mais do que uma polêmica passageira, o episódio revela um problema estrutural: quem decide o que importa no Brasil — e quem fica condenado ao silêncio.

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Jornalista, Intelectual Público, Pesquisador, Comunicador, Fotógrafo, Professor, Palestrante, Designer e Busólogo.