Como a inteligência artificial intensifica a exaustão social.
Introdução | Quando a tecnologia não descansa
A inteligência artificial e a exaustão social caminham juntas no cotidiano contemporâneo. Enquanto algoritmos operam 24 horas por dia, corpos humanos seguem pressionados a acompanhar um ritmo que não foi feito para eles. No entanto, pouco se discute sobre o custo subjetivo, social e político dessa aceleração permanente, sobretudo para trabalhadores das camadas populares, que já vivem sob jornadas extenuantes e baixa previsibilidade econômica.
A pergunta central não é se a IA veio para ficar. Ela já está aqui.
A questão é: a serviço de quem ela opera?
A IA no cotidiano: eficiência invisível, impacto real
E não para por aí. A IA não atua apenas quando escolhemos um filme, fazemos uma compra online ou recebemos uma notificação no celular. Ela atravessa o cotidiano de forma muitas vezes imperceptível, operando também em serviços públicos e profissionais que organizam, e controlam a vida social.
Hoje, sistemas de IA são utilizados na detecção de fraudes em tempo real, no reconhecimento facial em aeroportos e câmeras de vigilância urbana, na análise de exames médicos e no apoio a diagnósticos mais ágeis. Estão presentes nos corretores automáticos de texto, nas sugestões de palavras em mensagens, nas plataformas de tradução automática, nos filtros de e-mail e nas respostas rápidas sugeridas por sistemas inteligentes.
Em reuniões virtuais, recursos como legendas automáticas ampliam a acessibilidade e registram informações com mais precisão. A IA também opera em drones, dispositivos da Internet das Coisas, robôs e satélites, moldando desde a gestão das cidades até os sistemas de vigilância e monitoramento.
Esses exemplos mostram que a Inteligência Artificial não é um fenômeno distante do futuro. Ela já está profundamente integrada à sociedade, simplificando processos, redefinindo interações e alterando nossas noções de tempo, produtividade e controle.
Exaustão social: quando a tecnologia acelera o humano
O problema é que, enquanto os sistemas se tornam mais eficientes, os seres humanos seguem limitados por seus corpos, emoções e contextos sociais.
Na prática, a IA não reduz necessariamente o trabalho, mas frequentemente reorganiza as exigências: mais rapidez, mais disponibilidade, mais respostas, mais desempenho. O resultado é um cotidiano marcado por sensação constante de atraso, culpa e insuficiência.
Na Psicologia Social, sabemos que ambientes de alta exigência e baixo controle produzem adoecimento psíquico, especialmente quando naturalizados como “normais”.
Ética e desigualdade: a IA não é neutra
A Inteligência Artificial não nasce neutra. Ela aprende a partir de dados produzidos em sociedades desiguais.
Isso significa que algoritmos:
- reproduzem vieses raciais;
- reforçam estereótipos de classe;
- ampliam mecanismos de controle sobre populações já vulnerabilizadas.
Sistemas de reconhecimento facial, por exemplo, apresentam índices maiores de erro ao identificar pessoas negras. Algoritmos de crédito tendem a penalizar quem já vive em condições precárias. Plataformas de produtividade pressionam trabalhadores que não têm margem para recusar metas.
O que está em jogo não é apenas tecnologia, mas ética, poder e distribuição de riscos.
Racismo algorítmico: velhas desigualdades, novas ferramentas
O chamado racismo algorítmico não cria desigualdades, e sim, ele as automatiza.
Quando sistemas aprendem com dados historicamente marcados por exclusão, eles passam a legitimar decisões discriminatórias sob o discurso da objetividade técnica.
Isso é particularmente grave em um país como o Brasil, onde raça, classe e trabalho sempre caminharam juntos na produção da desigualdade social.
Conclusão | Automatizar sem humanizar cansa
A Inteligência Artificial pode, sim, ampliar acessos, reduzir erros e facilitar a vida. Mas sem debate público, diversidade na construção tecnológica e compromisso ético, ela corre o risco de aprofundar aquilo que já nos exaure.
Não basta perguntar o que a IA é capaz de fazer.
É preciso perguntar para quem ela trabalha, quem se beneficia e quem carrega o peso dessa eficiência.
Em um mundo cada vez mais automatizado, defender limites, descanso, dignidade e justiça social não é atraso.
É condição para que a tecnologia sirva à vida, e não o contrário.

