Como eleitor que acompanha de perto a política sergipana nos últimos anos, tenho a sensação cada vez mais clara de que algo fundamental está faltando no cenário político do estado: a existência de um conflito real de projetos.
Não falo de conflito pessoal, nem de disputa retórica vazia. Falo da ausência de uma disputa concreta entre visões de mundo distintas, entre caminhos políticos opostos, entre modelos de sociedade que se enfrentam politicamente. O que se vê hoje em Sergipe é outra coisa: acomodações, alianças amplas e uma política organizada mais por conveniência do que por identidade ideológica.
A imagem que sintetiza esse momento é simbólica: Rogério Carvalho, André Moura, Alessandro Vieira e Edvaldo Nogueira aparecem lado a lado, compondo um quadro político onde diferenças ideológicas já não produzem enfrentamento visível. Ao centro desse arranjo está o governo de Fábio Mitidieri, sustentado por uma ampla rede de alianças.
O cenário que se desenha para 2026 não apresenta uma clivagem nítida entre esquerda e direita, nem entre campos políticos claramente distintos. Ao contrário: revela forças que cabem confortavelmente na mesma fotografia, sem contradição aparente.
Um passado recente: quando houve disputa
Esse quadro contrasta com um período relativamente recente da história política de Sergipe. No início dos anos 2000, o estado viveu uma experiência clara de governo identificado com a esquerda, marcada por mobilização política, discurso de transformação social e expectativa de ruptura com os padrões tradicionais da política local.
A chamada “era Marcelo Déda” representou esse momento de ascensão e organização de um campo progressista: havia militância ativa, projeto reconhecível e identidade programática.
Após esse ciclo, o que se observa é um processo contínuo de declínio: fragmentação interna, perda de quadros, redução da presença municipal e enfraquecimento da capacidade de disputar hegemonia política no estado. Hoje, mesmo quando há representação institucional, ela já não se traduz em força social organizada nem em projeto político claramente alternativo.
Um governo sem antagonismo
O atual governo estadual opera sob uma lógica de pragmatismo administrativo e matriz liberal: discurso de eficiência, gestão técnica e alianças amplas. Mas sem ruptura social, sem projeto redistributivo forte e sem enfrentamento estrutural das desigualdades.
Não se trata de um governo de centro-esquerda. Trata-se de um governo neoliberal com acomodações políticas diversas, que incorpora setores historicamente identificados com a esquerda sem adotar um projeto social transformador.
O resultado é um campo político sem antagonismo real, sem narrativa de mudança e sem horizonte claro de transformação.
Quando a percepção vira dado
Essa leitura não nasce apenas da impressão subjetiva. Ela se confirma quando se observa o mapa político dos municípios sergipanos.
Basta analisar os resultados das últimas eleições municipais para perceber que a imensa maioria das prefeituras e das câmaras de vereadores está concentrada em partidos de centro e direita — como PSD, União Brasil, Republicanos, PP, PL, PSB e Cidadania.
Já o campo da esquerda partidária aparece de forma residual. O número de prefeitos e vereadores eleitos por partidos historicamente identificados com a esquerda pode ser contado nos dedos das mãos.
Esse é um dado público, verificável por qualquer cidadão que consulte os registros da Justiça Eleitoral.
Não se trata, portanto, apenas de uma crise de discurso. Trata-se de uma crise de presença territorial.
A esquerda perdeu base municipal.
Perdeu investimento estratégico.
Perdeu formação política.
Perdeu renovação de quadros.
Nos municípios, onde a política se constrói na vida cotidiana das pessoas, não há hoje lideranças fortes no campo progressista nem projetos estruturados de médio e longo prazo. Em muitos casos, quem se identifica como esquerda sequer consegue se manifestar politicamente sem entrar em choque direto com as gestões locais.
Enquanto isso, os partidos de centro e direita ocupam praticamente todo o território político: prefeituras, secretarias, estruturas administrativas, bases eleitorais e financiamento de campanha.
Não é apenas uma crise ideológica. É uma crise de infraestrutura política.
Juventude, precarização e avanço da direita
Esse quadro local dialoga com um fenômeno nacional mais amplo. Pesquisa recente analisada pelo cientista social João Feres aponta que a identificação com a direita cresce justamente entre os mais jovens.
Segundo os dados, apenas 25% dos baby boomers se declaram de direita ou centro-direita. Esse percentual sobe para 34% na geração X, salta para 51% entre os millennials e chega a 52% na geração Z.
Entre os fatores explicativos estão:
o distanciamento histórico em relação à ditadura militar,
a precarização do trabalho,
e a influência dos discursos neoliberais difundidos pelas redes sociais.
Enquanto gerações mais velhas viveram a experiência direta do autoritarismo, os mais jovens conhecem esse período apenas por relatos. Isso altera a percepção sobre democracia, risco político e direitos sociais.
No caso sergipano, esse fenômeno é agravado pela ausência de uma esquerda organizada nos territórios. Sem presença concreta nos municípios, sem formação política contínua e sem lideranças novas, o discurso progressista perde espaço onde a disputa ideológica mais importa: na vida cotidiana.
Entre a escolha e a falta de opção
Talvez alguns considerem essa análise exagerada. Mas os fatos indicam o contrário. Contra fatos, não há argumento.
O eleitor progressista em Sergipe vive hoje um paradoxo: identifica-se como esquerda, mas não se vê representado por uma força política organizada no território.
O que resta é apostar numa esquerda institucional isolada, sem musculatura social e sem capacidade real de tensionar o sistema.
Isso ajuda a explicar por que alianças improváveis se tornam normais e por que a disputa eleitoral tende a ser cada vez menos ideológica e mais administrativa.
Nesse contexto, a única força progressista consistente permanece sendo nacional, associada ao lulismo, mas sem tradução clara no plano estadual.
O eleitor fica diante de um dilema pobre:
não escolhe por convicção,
escolhe por falta de alternativa.
Não vota por esperança,
vota por cálculo.
Não vota por projeto,
vota por medo do vazio.
Política como carreira, não como causa
A fotografia dos principais atores políticos simboliza esse momento:
não é união programática, é acomodação.
Não é convergência ideológica, é centro político permanente.
É a política como carreira, não como causa.
É a lógica da sobrevivência, não da transformação.
Por isso expressões populares voltam a fazer sentido:
“Maria vai com as outras.”
“Tudo farinha do mesmo saco.”
Não porque sejam iguais como indivíduos, mas porque atuam dentro da mesma lógica:
preservar espaço,
evitar conflito,
manter portas abertas em todos os lados.
O problema não é dialogar.
O problema é não ter limite.
Sem oposição clara, sem disputa de projeto, sem antagonismo político, a democracia perde densidade.
E o eleitor perde sentido.
Talvez o retrato mais fiel desse momento político em Sergipe não seja um discurso nem uma proposta, mas uma imagem:
todos de mãos dadas, sorrindo, sem dizer exatamente para onde estão indo.

