A política sergipana tem um gosto peculiar por personagens complexos e trajetórias que se confundem com a própria história recente do estado. No centro deste tabuleiro, a figura de Edvaldo Nogueira se ergue como um paradoxo vivo: o administrador mais bem-sucedido da capital nas últimas décadas, agora às voltas com uma candidatura ao Senado que parece mais um labirinto do que uma estrada real. Sua jornada é a crônica de um poder que, ao se isolar na eficiência técnica, perdeu a bússola do jogo maior.
Por longos anos, Edvaldo foi a engrenagem mestra na máquina de Marcelo Deda. Vice-prefeito por dois mandatos, aprendeu que o poder duradouro se constrói não no ruído dos discursos, mas no silêncio das obras concluídas e das alianças costuradas nos gabinetes. Quando a onda Deda o levou à prefeitura em 2005 e o confirmou no primeiro turno de 2008, parecia a coroação de uma fórmula perfeita: a do gestor pragmático, do realizador que substitui a ideologia pelo asfalto. “Cumprir compromissos” era seu lema, e Aracaju, seu testemunho.
O sucesso, porém, é um mestre traiçoeiro. A competência comprovada gerou uma autossuficiência que, aos poucos, se tornou soberba. Observadores próximos notaram o isolamento crescente, a substituição do diálogo pela imposição. O ápice dessa curva negativa foi um ato de hybris política: a imposição de Luiz Roberto como seu sucessor na prefeitura em 2024. Edvaldo acreditou que seu selo de “gestor competente” era um patrimônio hereditário. O eleitorado, cruelmente pedagógico, entregou a cidade à bolsonarista Emilia Correia. A derrota não foi um revés; foi o desmoronamento do mito. Ficou claro que a popularidade de Edvaldo era pessoal, intransferível e, agora, questionável.
É deste campo devastado que ele tenta a escalada ao Senado. Seu discurso é o do autodidata que chega à prova final: fala em “experiência, competência, capacidade e projeto”, prometendo ser um “senador municipalista” que trabalhará “de oiturnamento”. Soa como a tentativa de um técnico de transpor os muros da capital para o território vasto e imprevisível do estado. A realidade, porém, é um espelho gelado.
O PDT que o abriga é um partido de centro-esquerda sem raízes profundas na esquerda militante sergipana. Pior: seu caminho ao Senado está bloqueado por gigantes de narrativas fortes e, por vezes, trágicas. Ele não disputa contra abstrações, mas contra histórias que já conquistaram o estado.
De um lado, há a solidez ideológica de Rogério Carvalho (PT), um senador que já possui cadeira, trajetória própria e representa, sem ambiguidades, um campo político definido. Seria, por si só, um obstáculo monumental para Edvaldo, disputando o mesmo eleitorado potencial.
Do outro, a contradição ambulante de Alessandro Vieira (MDB), que busca a reeleição. Vieira construiu uma imagem nacional como “caçador de marajás”, lavatista e crítico do orçamento secreto, mas depois votou a favor da PEC da Desvinculação de Receitas da União (DRU), uma facada nos recursos de estados e municípios, e apoiou projetos polêmicos como a PL da Devastação e a PL da Bandidagem (Dosimetria), que geraram intenso debate nacional. É a figura do político que navega nas contradições entre o discurso ético e os interesses do poder estabelecido.
E há, pairando sobre o cenário como um fantasma ativo, a sombra de André Moura (UNIÃO), condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 8 anos e 3 meses de prisão por peculato, desvio de recurso público e associação criminosa. Mesmo na desgraça judicial, sua força como cabo eleitoral e sua base de apoio seguem sendo uma variável impossível de ignorar no cálculo sergipano. Este cenário só é possível no solo fértil do atraso sergipano, onde o voto é tribal, o desenvolvimento uma miragem e o coronelismo moderno transforma contradições, condenações e fragilidades nas únicas opções em cartaz.
Neste labirinto, a aliança de Edvaldo com o governador Fábio Mitidieri parece menos uma ponte e mais uma armadilha. Como pode o “senador da competência” navegar em um palanque que abriga, ou abrigou, o contraditório Vieira e o condenado Moura? Que mensagem coerente será transmitida ao eleitor desiludido? Enquanto Edvaldo tenta vender seriedade administrativa, sua campanha estará atrelada a figuras que representam, para muitos, o próprio núcleo do problema. Ele não tem um território ideológico claro como Rogério, nem o perfil nacional contraditório de Vieira, nem a base populista de Moura. Tem um currículo. E currículo, no feudo sergipano, é moeda que perde valor rápido quando confrontada com as engrenagens brutais do poder tradicional.
A candidatura de Edvaldo Nogueira ao Senado, portanto, é muito mais do que uma ambição pessoal. É o plebiscito sobre uma espécie política que pode estar em extinção mesmo antes de florescer: a do gestor puro, do administrador que acreditava que os números e as obras falariam mais alto do que as lealdades de clã e as contradições do sistema.
Como bem diz a canção de Lulu Santos, “nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia”. O operário da política que ascendeu pela técnica descobriu, tarde demais, que no coronelismo moderno de Sergipe, a eficiência é apenas um detalhe. Seu maior adversário não está no palanque ao lado. Está no espelho, refletindo a imagem de um homem que, ao confundir prefeitura com reinado, pode ter se tornado apenas mais um personagem no ciclo interminável do poder. As eleições de 2026 se apresentam, assim, como uma encruzilhada para o estado: serão o ano que rompe com essa trajetória de sempre, abrindo um novo ciclo, ou apenas mais um capítulo do velho “Sergipe del Rey”? O tempo, esse juiz implacável, está prestes a dar seu veredito. E a plateia, cansada e cética, observa, sabendo que o roteiro é conhecido, mas torcendo, talvez, por uma reviravolta inédita.

