Delegado Ken prende a verdade em flagrante… errado

De
Pesquisador Paulo Marcelo
Jornalista, Intelectual Público, Pesquisador, Comunicador, Fotógrafo, Professor, Palestrante, Designer e Busólogo.

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Entre discursos ensaiados, números que mudam conforme o palco e uma performance digna de holofotes permanentes, o secretário de Segurança Pública — oficialmente secretário de Defesa Social e Cidadania — resolveu protagonizar mais um episódio curioso da política sergipana. Nas redes, André Davi, agora carinhosamente apelidado pelo público de Delegado Ken, afirmou com convicção que Aracaju teria saído de uma nota 2 em segurança pública em 2024 para uma nota 7 em 2025. O problema é que os dados oficiais contam outra história.

De acordo com informações publicadas no site da própria Prefeitura Municipal de Aracaju, em matéria divulgada no dia 4 de dezembro de 2025, a capital sergipana registrou nota 5,71 em 2024 e alcançou 7,47 em 2025 no indicador de segurança pública. Ou seja: não houve nota 2. Nunca houve. O número simplesmente não existe nos registros oficiais.

Diante disso, até se poderia alegar um deslize de memória, um erro de improviso, aquele tropeço comum de quem liga a câmera do celular e fala “de cabeça”. Acontece que o Delegado Ken foi além. Em entrevista concedida a uma rádio, já preparado, com tempo para consultar dados e assessoria, ele reafirmou categoricamente que “a de 24 foi 2 mesmo”, encerrando o assunto com a segurança de quem acredita que convicção substitui documento.

E aí está o flagrante — errado.

Não se trata apenas de um número fora do lugar. Trata-se de uma tentativa clara de construção narrativa, onde o antes precisa parecer catastrófico para que o agora soe heroico. Quanto pior o passado apresentado, maior o brilho da gestão atual. O problema é que, nesse roteiro, os dados oficiais atrapalham o espetáculo.

A situação fica ainda mais curiosa quando o secretário tenta sustentar sua suposta eficiência comparando apreensões de armas entre 2024 e 2025. O detalhe que passa batido no discurso, mas não passa na realidade jurídica, é que o STF só autorizou a atuação ostensiva das guardas municipais em fevereiro de 2025. Antes disso, a atuação era majoritariamente preventiva. Comparar períodos com atribuições completamente diferentes não é eficiência — é maquiagem estatística.

O Delegado Ken, no entanto, parece confortável nesse papel. Sempre muito seguro, sempre muito confiante, sempre pronto para a próxima câmera. Holofotes não faltam. O contraditório, sim. Prova disso é que críticas fundamentadas resultaram em bloqueios nas redes sociais, atitude pouco compatível com quem se apresenta como liderança pública disposta a enfrentar desafios maiores, como um governo estadual ou uma cadeira no Senado.

No fim das contas, sobra uma pergunta simples, que dispensa ironia: como alguém pode se apresentar como alternativa política sólida se não sustenta seus próprios dados diante da checagem mais básica?

A verdade, essa sim, acabou presa em flagrante — não por crime, mas por atrapalhar a encenação. E, nesse caso, não adiantou topete no lugar, pose firme ou discurso treinado. Documento público não pisca, não treme e não muda de versão.

De gogó, muita gente entende.
De número, a realidade cobra.

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Jornalista, Intelectual Público, Pesquisador, Comunicador, Fotógrafo, Professor, Palestrante, Designer e Busólogo.