Recentemente eu tive uma discussão em família sobre cotas. Minha tia, uma senhora de mais de 80 anos, disse que era contra, porque, segundo ela, as cotas subestimariam a inteligência das pessoas negras, como se fossem inferiores. Ela também disse que, no tempo dela, tudo foi conquistado com esforço, que ela se esforçou e venceu, e usou exemplos individuais para justificar sua posição.
Eu disse a ela, primeiro, que essa discussão já foi resolvida juridicamente. O Supremo Tribunal Federal decidiu que o sistema de cotas é constitucional. Não é uma questão de opinião pessoal, é uma política pública baseada em estudos, dados e na realidade social.
Depois expliquei que não se constrói uma política pública com base em casos isolados do tipo “eu consegui” ou “fulano conseguiu”. Isso é subjetividade. O debate sobre cotas é científico. Ele se baseia em estatísticas, em história e em estrutura social. Uma pessoa vencer apesar das dificuldades não prova que o sistema é justo. Prova apenas que ela sobreviveu a ele.
Expliquei também que cotas não existem porque negros são menos inteligentes, mas porque a sociedade brasileira foi construída de forma profundamente desigual. Quando a escravidão acabou, os donos de escravos foram indenizados pelo Estado. Os escravizados não receberam nada. Foram lançados à própria sorte, sem terra, sem escola, sem trabalho e sem qualquer política de integração.
Como alguém que nasce nessas condições concorre com quem nasce em uma família rica, com casa estruturada, alimentação adequada, escola de qualidade e tempo para estudar?
Hoje a ciência mostra que os primeiros anos de vida são decisivos para o desenvolvimento do cérebro. Crianças que têm boa alimentação, com acesso regular a proteínas, vitaminas e nutrientes, desenvolvem melhor suas capacidades cognitivas. Crianças que crescem com fome ou alimentação precária têm mais dificuldade de aprendizagem, de memória e de concentração. Isso não é falta de inteligência. É falta de condições.
Aí eu usei um exemplo simples. Quem é contra cotas deveria ser contra a UTI. A UTI trata de forma diferente quem está em situação mais grave. Imagine um hospital que trate do mesmo jeito quem está com dor de cabeça e quem está em parada cardíaca. Isso não é justiça, é crueldade. A UTI existe porque reconhece que há situações desiguais. As cotas funcionam da mesma forma. Não são privilégio, são uma resposta a uma desigualdade histórica.
Eu também disse que quem é contra cotas, na prática, sustenta um discurso racista, mesmo que não se reconheça como racista. Porque ignora a história, ignora a desigualdade estrutural e finge que todos começaram do mesmo ponto.
E o mais triste é que esse discurso não aparece só em pessoas brancas e ricas. Ele também aparece em pessoas negras e pobres. Quando isso acontece, é exatamente o sistema funcionando como foi planejado, fazendo com que o próprio excluído seja contra as políticas que poderiam diminuir sua exclusão. É o inseto defendendo o inseticida.
Não é sobre dar vantagem. É sobre tentar reduzir uma desvantagem produzida por séculos de escravidão, exclusão e abandono do Estado.
E, sinceramente, discutir cotas hoje é insistir em um debate que já foi encerrado do ponto de vista legal, científico e social. Muitas vezes é uma discussão intolerante, porque quem é contra cotas geralmente não quer refletir, não quer estudar a história e não quer rever suas próprias crenças. Quer apenas manter um privilégio que sempre foi tratado como se fosse mérito.
Igualdade é tratar todos da mesma forma. Justiça é tratar diferente quem foi tratado de forma diferente por séculos.

