Na política do interior, nada acontece fora do tempo. E tempo político é tudo. A recente divulgação de imagens de Hilda Ribeiro ao lado de Gustinho Ribeiro, durante a entrega de cestas básicas em Simão Dias, não deve ser lida como um simples gesto de assistência social. Trata-se de uma ação pensada, localizada e simbólica, que revela mais sobre o futuro e o possível esgotamento de um grupo político tradicional do que sobre solidariedade.
Os nomes envolvidos importam. Gustinho Ribeiro, Hilda Ribeiro e Áurea Ribeiro representam um projeto familiar que já deu o que tinha de dar. A política é feita de momentos, e há sobrenomes que, quando insistem em permanecer, passam a disputar não mais o futuro, mas a própria sobrevivência.
A escolha de Simão Dias, município vizinho a Lagarto, não é casual. É ali que Hilda começa a construir visibilidade fora do seu território de origem, preparando o terreno para uma candidatura a deputada estadual em 2026. O gesto é simples: aparecer, ser vista, ser lembrada. A cesta básica funciona como meio, não como fim. O objetivo é colar o rosto ao gesto e o gesto ao voto.
Enquanto isso, Lagarto deixa de ser prioridade. Não por descuido, mas por cálculo. A avaliação interna é dura. Gustinho Ribeiro corre sério risco de não se eleger, e Áurea Ribeiro, mesmo que dispute novamente, dificilmente será reeleita. O ciclo se fecha. A velha liderança já não empolga, já não mobiliza como antes, já não garante vitória automática.
É nesse vazio que surge Hilda como tentativa de renovação controlada. Não é ruptura, é reciclagem. A família muda o rosto, mas mantém o método. A velha política se atualiza esteticamente, sem abandonar sua lógica central: transformar vulnerabilidade social em capital eleitoral.
Por isso a ação precisa ser filmada, fotografada e publicada. Se fosse apenas assistência, bastaria entregar. Mas a política do favor exige registro. A imagem cumpre um papel psíquico fundamental. Ela fixa a memória do eleitor, cria uma associação afetiva e reforça a ideia de presença. Quem aparece ajudando passa a ocupar, simbolicamente, o lugar de quem merece representar.
Essa é uma estratégia antiga, herdada do coronelismo, agora adaptada ao algoritmo. Antes, o favor circulava no silêncio. Hoje, ele precisa circular no feed. A mão que faz não apenas mostra, ela exige ser vista.
Mas há um problema estrutural nesse modelo. Ele não transforma a realidade. A cesta básica não muda a educação, não fortalece a saúde, não protege o meio ambiente, não gera autonomia. Ela mantém tudo exatamente como está. E isso interessa a quem depende de um eleitorado fragilizado, dependente e pouco crítico.
É preciso dizer com clareza. Não há ilegalidade explícita, mas há uma imoralidade política evidente. Quando a pobreza vira ferramenta, ela deixa de ser combatida. Quando o assistencialismo vira estratégia permanente, ele substitui o compromisso público por encenação.
Além disso, não se pode ignorar que tanto Hilda quanto Gustinho Ribeiro carregam processos e investigações que acompanham suas trajetórias políticas. Isso não é detalhe. Representar o povo exige ficha limpa, compromisso público e responsabilidade com o coletivo, não apenas presença em fotos e vídeos cuidadosamente calculados.
A sociedade sergipana precisa compreender que não há mais espaço para votar por torcida organizada, por sobrenome ou por herança política. A política do interior não pode continuar refém de famílias que tratam o mandato como extensão do próprio nome.
O tempo mudou. O eleitor mudou. E quem insiste em estratégias antigas corre o risco de descobrir, tarde demais, que visibilidade não é legitimidade e que política não é eternidade. É momento. E o momento, para alguns sobrenomes, pode estar acabando.

