Jornalista, Intelectual Público, Pesquisador, Comunicador, Fotógrafo, Professor, Palestrante, Designer e Busólogo.
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Ausência de políticas públicas
Em mais uma jornada do projeto Histórias e Memórias, chego à Capela do antigo Engenho Jesus Maria José, no município de Laranjeiras. Uma construção erguida em 1769, hoje abandonada, tomada pelo mato e entregue às ruínas. E o dado mais grave: trata-se de um bem tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional desde 1943. Tombado no papel, esquecido na prática.
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O que restou da capela é uma carcaça de memória. O acervo desapareceu: altares, púlpito, pinturas sacras e o forro atribuído ao artista José Teófilo de Jesus, referência da pintura religiosa no Brasil colonial. A vegetação avança sobre as fachadas como se tentasse ocultar décadas de omissão institucional.
Ainda assim, a arquitetura resiste. As torres em bulbo revestidas de azulejos, as janelas do coro e a fachada monumental permanecem como vestígios de um tempo em que fé, economia e poder se articulavam no espaço dos engenhos. A capela integrava o complexo produtivo do açúcar, exercendo função religiosa e simbólica na organização social do território.
Em 2017, a situação gerou reação judicial. A Justiça Federal determinou que a Usina São José do Pinheiro fosse obrigada a restaurar e conservar a capela. A decisão foi provocada por ações do Ministério Público Federal e do próprio Iphan. À época, o desembargador relator destacou que a empresa possuía capital social estimado em 108 milhões de reais e que não cabia à sociedade arcar com o custo da recuperação de um patrimônio destruído dentro das terras do próprio empreendimento.
Passados quase dez anos, a pergunta segue sem resposta: onde está o restauro?
O caso da capela não é isolado. Ele revela um problema estrutural na política de preservação do patrimônio histórico em Sergipe: imóveis tombados continuam expostos à degradação sem fiscalização efetiva, sem planos de uso e sem integração às estratégias de desenvolvimento local.
Preservar não é apenas proteger paredes antigas — é proteger narrativas, vínculos identitários e possibilidades econômicas. Em outros países, esse entendimento já foi incorporado às políticas públicas. A Itália trata Roma e o Coliseu como parte essencial de sua economia cultural. Portugal criou o programa Revive, que transforma ruínas históricas em equipamentos turísticos e culturais. No Nepal, após terremotos devastadores, a reconstrução dos templos foi assumida como estratégia de reconstrução econômica e simbólica.
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Em Sergipe, no entanto, monumentos como a Capela do Engenho Jesus Maria José continuam se desfazendo diante dos olhos do poder público e da sociedade. A cada telha que cai, não se perde apenas um fragmento arquitetônico, mas parte da história do trabalho, da fé e da formação social do estado.
Para além do registro do abandono, esta reportagem propõe também um exercício de imaginação política e histórica. A imagem a seguir é uma projeção de como a Capela do antigo Engenho Jesus, Maria e José poderia estar hoje caso houvesse políticas públicas permanentes de restauração, conservação e integração ao turismo cultural.
Onde hoje há ruína e isolamento no meio do canavial, poderia existir uma praça, circulação de visitantes, comércio artesanal e um espaço vivo de memória. Não se trata de fantasia, mas de um cenário possível, já adotado em diversos países que transformaram o patrimônio histórico em vetor de desenvolvimento econômico e identidade cultural.
O abandono do patrimônio histórico não é resultado apenas do tempo. É consequência direta de escolhas políticas, da ausência de fiscalização e da falta de prioridade na preservação da memória coletiva. Enquanto isso, o que deveria ser referência cultural e potencial turístico segue reduzido a ruína, silêncio e esquecimento.
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