Capela do Engenho Jesus Maria José expõe abandono do patrimônio histórico em Sergipe

Monumento do século XVIII, tombado pelo Iphan desde 1943, segue em ruínas mesmo após decisão judicial que determinou restauração pela Usina São José do Pinheiro.

De
Pesquisador Paulo Marcelo
Jornalista, Intelectual Público, Pesquisador, Comunicador, Fotógrafo, Professor, Palestrante, Designer e Busólogo.

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Em mais uma jornada do projeto Histórias e Memórias, chego à Capela do antigo Engenho Jesus Maria José, no município de Laranjeiras. Uma construção erguida em 1769, hoje abandonada, tomada pelo mato e entregue às ruínas. E o dado mais grave: trata-se de um bem tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional desde 1943. Tombado no papel, esquecido na prática.

O que restou da capela é uma carcaça de memória. O acervo desapareceu: altares, púlpito, pinturas sacras e o forro atribuído ao artista José Teófilo de Jesus, referência da pintura religiosa no Brasil colonial. A vegetação avança sobre as fachadas como se tentasse ocultar décadas de omissão institucional.

Ainda assim, a arquitetura resiste. As torres em bulbo revestidas de azulejos, as janelas do coro e a fachada monumental permanecem como vestígios de um tempo em que fé, economia e poder se articulavam no espaço dos engenhos. A capela integrava o complexo produtivo do açúcar, exercendo função religiosa e simbólica na organização social do território.

Capela do Engenho Jesus Maria José abandonada em Laranjeiras, Sergipe

Decisão judicial e a pergunta que permanece

Em 2017, a situação gerou reação judicial. A Justiça Federal determinou que a Usina São José do Pinheiro fosse obrigada a restaurar e conservar a capela. A decisão foi provocada por ações do Ministério Público Federal e do próprio Iphan. À época, o desembargador relator destacou que a empresa possuía capital social estimado em 108 milhões de reais e que não cabia à sociedade arcar com o custo da recuperação de um patrimônio destruído dentro das terras do próprio empreendimento.

Passados quase dez anos, a pergunta segue sem resposta: onde está o restauro?

Um problema estrutural em Sergipe

O caso da capela não é isolado. Ele revela um problema estrutural na política de preservação do patrimônio histórico em Sergipe: imóveis tombados continuam expostos à degradação sem fiscalização efetiva, sem planos de uso e sem integração às estratégias de desenvolvimento local.

Preservar não é apenas proteger paredes antigas — é proteger narrativas, vínculos identitários e possibilidades econômicas. Em outros países, esse entendimento já foi incorporado às políticas públicas. A Itália trata Roma e o Coliseu como parte essencial de sua economia cultural. Portugal criou o programa Revive, que transforma ruínas históricas em equipamentos turísticos e culturais. No Nepal, após terremotos devastadores, a reconstrução dos templos foi assumida como estratégia de reconstrução econômica e simbólica.

Ruínas da Capela do Engenho Jesus Maria José em Laranjeiras

Em Sergipe, no entanto, monumentos como a Capela do Engenho Jesus Maria José continuam se desfazendo diante dos olhos do poder público e da sociedade. A cada telha que cai, não se perde apenas um fragmento arquitetônico, mas parte da história do trabalho, da fé e da formação social do estado.

Para além do registro do abandono, esta reportagem propõe também um exercício de imaginação política e histórica. A imagem a seguir é uma projeção de como a Capela do antigo Engenho Jesus, Maria e José poderia estar hoje caso houvesse políticas públicas permanentes de restauração, conservação e integração ao turismo cultural.

Onde hoje há ruína e isolamento no meio do canavial, poderia existir uma praça, circulação de visitantes, comércio artesanal e um espaço vivo de memória. Não se trata de fantasia, mas de um cenário possível, já adotado em diversos países que transformaram o patrimônio histórico em vetor de desenvolvimento econômico e identidade cultural.

Fachada da Capela do Engenho Jesus Maria José tombada pelo Iphan

O abandono do patrimônio histórico não é resultado apenas do tempo. É consequência direta de escolhas políticas, da ausência de fiscalização e da falta de prioridade na preservação da memória coletiva. Enquanto isso, o que deveria ser referência cultural e potencial turístico segue reduzido a ruína, silêncio e esquecimento.

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Jornalista, Intelectual Público, Pesquisador, Comunicador, Fotógrafo, Professor, Palestrante, Designer e Busólogo.