Localizado no agreste sergipano, a cerca de 60 quilômetros de Aracaju, Campo do Brito é um município conhecido pela produção de farinha, pela barragem e por uma dinâmica política que há anos desperta mais repetição do que renovação. Com pouco mais de 18 mil habitantes, a cidade se tornou, recentemente, palco de um dos casos mais curiosos — e constrangedores — da política local: dois irmãos ocupando simultaneamente o comando do Executivo municipal.
Eleito em 2024 com mais de 8 mil votos, Médici de Souza, conhecido como Médici de Maim, é oficialmente o prefeito da cidade. O CPF que assina decretos e portarias é o dele. Mas a escolha da própria irmã como vice-prefeita expôs de forma escancarada um modelo político baseado no familismo e no nepotismo moral, ainda que legal, que há décadas se reproduz no município.
Em qualquer democracia minimamente saudável, a presença de dois irmãos no topo do poder Executivo causaria constrangimento político. Em Campo do Brito, virou regra. Para muitos moradores, a mensagem foi clara: não se trata de projeto de governo, mas de preservação de poder.
Esse arranjo não nasce agora. Ele se conecta diretamente à dinastia Souza, construída e consolidada pelo ex-prefeito Marcel Souza, que governou o município por anos e, segundo relatos recorrentes dos bastidores, nunca deixou de governar de fato. Hoje, a percepção dominante é que Médici ocupa o cargo, mas Marcel dita o ritmo, organiza agendas, influencia decisões e orienta os principais movimentos da gestão.
Há quem diga — e essa avaliação circula com força nos bastidores — que a escolha da irmã como vice não foi apenas um gesto de confiança familiar, mas uma estratégia de contenção. Caso Médici, frequentemente descrito como atrapalhado e pouco afeito à rotina administrativa, não consiga concluir o primeiro mandato, o poder permaneceria protegido dentro do mesmo núcleo. Uma forma de segurar a prefeitura e garantir a continuidade de um projeto que, na prática, nunca saiu das mãos de Marcel Souza.
O debate ganha ainda mais peso quando se observa que nenhum dos envolvidos depende economicamente da política. Médici declarou à Justiça Eleitoral um patrimônio superior a R$ 10,3 milhões, incluindo imóveis urbanos e rurais, veículos de alto valor e R$ 7,2 milhões em fundos. Marcel, por sua vez, também construiu conforto financeiro fora da política.
Ainda assim, o poder permanece sendo disputado, preservado e cercado com zelo quase obsessivo. Porque, como já alertava a filosofia política, o poder não é apenas instrumento — é vício. Aristóteles dizia que “o homem é, por natureza, um animal político”, mas a história mostra que, quando o poder deixa de ser meio e passa a ser fim, ele se transforma na mais viciante das drogas. Em Campo do Brito, essa dependência parece evidente.
Não por acaso, Marcel Souza é apontado como potencial candidato a deputado estadual em 2026, o que ajuda a explicar o controle rigoroso do território político local. Manter a prefeitura sob influência direta é garantir base eleitoral, estrutura e capital político para voos maiores.
Esse domínio se sustenta também pela ausência quase total de oposição qualificada. A Câmara de Vereadores, que deveria atuar como espaço técnico, fiscalizador e propositivo, carece de quadros intelectualmente preparados para enfrentar o Executivo. O debate público é raso, e a fiscalização, tímida.
A fragilidade institucional se reflete ainda na composição do secretariado. A nomeação de Genilson da Silva Menezes para a Secretaria de Agricultura e Meio Ambiente escancarou esse problema. Segundo dados da Justiça Eleitoral, seu grau de instrução declarado é “lê e escreve”. Não há formação técnica ou superior para uma pasta estratégica em um município que depende diretamente da agricultura e enfrenta desafios ambientais reais. A escolha reforça a lógica de que, em Campo do Brito, confiança política vale mais que competência técnica.
No fim das contas, a pergunta central permanece sem resposta oficial, mas cada vez mais clara na percepção popular:
o CPF do prefeito é de Médici, mas o poder continua sendo de Marcel Souza.
Campo do Brito segue como exemplo de uma democracia local fragilizada, onde a política se organiza como herança familiar e onde o poder, mesmo quando troca de nome, raramente troca de mãos.Campo do Brito: o CPF muda, mas o poder continua em família
Localizado no agreste sergipano, a cerca de 60 quilômetros de Aracaju, Campo do Brito é um município conhecido pela produção de farinha, pela barragem e por uma dinâmica política que há anos desperta mais repetição do que renovação. Com pouco mais de 18 mil habitantes, a cidade se tornou, recentemente, palco de um dos casos mais curiosos — e constrangedores — da política local: dois irmãos ocupando simultaneamente o comando do Executivo municipal.
Eleito em 2024 com mais de 8 mil votos, Médici de Souza, conhecido como Médici de Maim, é oficialmente o prefeito da cidade. O CPF que assina decretos e portarias é o dele. Mas a escolha da própria irmã como vice-prefeita expôs de forma escancarada um modelo político baseado no familismo e no nepotismo moral, ainda que legal, que há décadas se reproduz no município.
Em qualquer democracia minimamente saudável, a presença de dois irmãos no topo do poder Executivo causaria constrangimento político. Em Campo do Brito, virou regra. Para muitos moradores, a mensagem foi clara: não se trata de projeto de governo, mas de preservação de poder.
Esse arranjo não nasce agora. Ele se conecta diretamente à dinastia Souza, construída e consolidada pelo ex-prefeito Marcel Souza, que governou o município por anos e, segundo relatos recorrentes dos bastidores, nunca deixou de governar de fato. Hoje, a percepção dominante é que Médici ocupa o cargo, mas Marcel dita o ritmo, organiza agendas, influencia decisões e orienta os principais movimentos da gestão.
Há quem diga — e essa avaliação circula com força nos bastidores — que a escolha da irmã como vice não foi apenas um gesto de confiança familiar, mas uma estratégia de contenção. Caso Médici, frequentemente descrito como atrapalhado e pouco afeito à rotina administrativa, não consiga concluir o primeiro mandato, o poder permaneceria protegido dentro do mesmo núcleo. Uma forma de segurar a prefeitura e garantir a continuidade de um projeto que, na prática, nunca saiu das mãos de Marcel Souza.
O debate ganha ainda mais peso quando se observa que nenhum dos envolvidos depende economicamente da política. Médici declarou à Justiça Eleitoral um patrimônio superior a R$ 10,3 milhões, incluindo imóveis urbanos e rurais, veículos de alto valor e R$ 7,2 milhões em fundos. Marcel, por sua vez, também construiu conforto financeiro fora da política.
Ainda assim, o poder permanece sendo disputado, preservado e cercado com zelo quase obsessivo. Porque, como já alertava a filosofia política, o poder não é apenas instrumento — é vício. Aristóteles dizia que “o homem é, por natureza, um animal político”, mas a história mostra que, quando o poder deixa de ser meio e passa a ser fim, ele se transforma na mais viciante das drogas. Em Campo do Brito, essa dependência parece evidente.
Não por acaso, Marcel Souza é apontado como potencial candidato a deputado estadual em 2026, o que ajuda a explicar o controle rigoroso do território político local. Manter a prefeitura sob influência direta é garantir base eleitoral, estrutura e capital político para voos maiores.
Esse domínio se sustenta também pela ausência quase total de oposição qualificada. A Câmara de Vereadores, que deveria atuar como espaço técnico, fiscalizador e propositivo, carece de quadros intelectualmente preparados para enfrentar o Executivo. O debate público é raso, e a fiscalização, tímida.
A fragilidade institucional se reflete ainda na composição do secretariado. A nomeação de Genilson da Silva Menezes para a Secretaria de Agricultura e Meio Ambiente escancarou esse problema. Segundo dados da Justiça Eleitoral, seu grau de instrução declarado é “lê e escreve”. Não há formação técnica ou superior para uma pasta estratégica em um município que depende diretamente da agricultura e enfrenta desafios ambientais reais. A escolha reforça a lógica de que, em Campo do Brito, confiança política vale mais que competência técnica.
No fim das contas, a pergunta central permanece sem resposta oficial, mas cada vez mais clara na percepção popular:
o CPF do prefeito é de Médici, mas o poder continua sendo de Marcel Souza.
Campo do Brito segue como exemplo de uma democracia local fragilizada, onde a política se organiza como herança familiar e onde o poder, mesmo quando troca de nome, raramente troca de mãos.

