Ataques misóginos contra procuradora federal em Sergipe expõem violência digital contra mulheres

De
Pesquisador Paulo Marcelo
Jornalista, Intelectual Público, Pesquisador, Comunicador, Fotógrafo, Professor, Palestrante, Designer e Busólogo.

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Procuradora da República no Ministério Público Federal, Gisele ocupa um espaço institucional de enorme responsabilidade. Não apenas pelo cargo que exerce, mas também pelo simbolismo que carrega: ocupar um espaço de poder que historicamente sempre foi dominado por homens.

Recentemente, um vídeo gravado no município de Propriá, ao lado do prefeito Luciano de Menininha, ganhou grande repercussão nas redes sociais. No vídeo, o tema era claro: meio ambiente, responsabilidade institucional e a importância do licenciamento ambiental.

Nada além disso.

Mas bastou o vídeo circular para que parte das reações deixasse de lado o conteúdo da fala e passasse a comentar outra coisa: a aparência da procuradora, o cabelo, a roupa, o estilo, as tatuagens.

Ou seja, aquilo que nada tinha a ver com o assunto tratado.

Essa reação revela algo muito mais profundo sobre a sociedade em que vivemos. Existe ainda hoje um molde invisível que tenta determinar como uma mulher deve se vestir, falar ou se comportar para ser considerada “adequada” em determinados espaços — especialmente em posições de poder.

Quando uma mulher rompe esse molde, o incômodo aparece.

Conversando com Gisele esta semana, falamos sobre isso. Ela não precisa explicar para ninguém por que se veste da maneira que se veste. E, na verdade, essa nem deveria ser uma pergunta. Ainda assim, ela compartilhou comigo algo simples e profundo: cada elemento do seu estilo tem significado.

Antes mesmo de atuar no direito, ela já teve relação com o universo da moda. Para ela, o corpo também é uma forma de expressão. As tatuagens são arte. Os acessórios têm história. Cada detalhe representa escolhas, momentos, identidade.

E é isso que importa: ser quem se é.

Eu mesmo disse a ela, na conversa que tivemos, que admiro exatamente isso — a coragem de não viver em função da expectativa dos outros.

Gisele também contou que já está, infelizmente, acostumada com ataques misóginos ao longo da carreira. Ataques que tentam desqualificar sua atuação não pelo conteúdo do seu trabalho, mas por aspectos pessoais. Alguns chegam a dizer que ela só ocupa o cargo que ocupa porque teria sido “colocada ali” por influência política — ignorando completamente a trajetória, o concurso público e o mérito profissional exigidos para integrar o Ministério Público Federal.

Mas algo a surpreendeu neste episódio recente: muitos ataques vieram de outras mulheres.

Isso revela um fenômeno conhecido nas ciências sociais: certos preconceitos são tão antigos e tão naturalizados que acabam sendo reproduzidos até por quem também sofre seus efeitos.

A misoginia é frequentemente apontada como uma das formas mais antigas de preconceito da humanidade. Ela atravessa culturas, religiões e sociedades. Não depende de nacionalidade ou aparência. Está presente em diversas estruturas simbólicas que aprendemos desde cedo.

Basta observar exemplos simples do cotidiano.

Quando um homem tem muitos relacionamentos, ele é chamado de “garanhão”, “tigrão”, “conquistador”.
Quando uma mulher vive a mesma situação, os termos usados são bem diferentes — e quase sempre ofensivos.

Quando um homem fala com firmeza no trabalho, ele é visto como líder.
Quando uma mulher faz o mesmo, muitas vezes é chamada de arrogante ou autoritária.

Meninos são ensinados a provar sua masculinidade contando histórias de conquistas amorosas. Já meninas aprendem cedo que sua reputação pode ser julgada por qualquer comportamento considerado “fora do padrão”.

Essas pequenas narrativas se repetem na linguagem, na cultura e nas instituições. Elas vão criando um ambiente em que certas ideias parecem naturais — mesmo quando são profundamente injustas.

Por isso, quando uma mulher em posição pública é atacada não por suas decisões ou argumentos, mas pelo modo como se veste ou se apresenta, o problema deixa de ser individual. Ele revela um padrão cultural que ainda precisa ser enfrentado.

E aqui entra também o papel do jornalismo.

Nosso trabalho não é alimentar ataques ou amplificar preconceitos. Nosso trabalho é informar, contextualizar e ajudar a sociedade a refletir sobre aquilo que realmente importa.

Misoginia não é opinião. Em muitos casos, é crime.

E talvez já tenha passado da hora de tratarmos esse tema não mais como uma discussão abstrata, mas como um compromisso coletivo com educação, respeito e responsabilidade.

Porque, no fim das contas, a pergunta que fica é simples:

por que alguém se incomoda tanto com o modo como outra pessoa se veste ou se expressa — se isso não muda absolutamente nada na própria vida?

Enquanto alguns se ocupam com a aparência, Gisele Bleggi Cunha segue fazendo aquilo que realmente importa: exercer sua função pública, defender a lei e participar de debates fundamentais para o país, como a proteção do meio ambiente.

E talvez seja justamente aí que o foco deveria estar desde o início.

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Jornalista, Intelectual Público, Pesquisador, Comunicador, Fotógrafo, Professor, Palestrante, Designer e Busólogo.