Após campanha espiritual, gestão Samuel Carvalho passa a lidar com problemas terrenos

De
Pesquisador Paulo Marcelo
Jornalista, Intelectual Público, Pesquisador, Comunicador, Fotógrafo, Professor, Palestrante, Designer e Busólogo.

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Samuel Carvalho chegou ao poder sustentado por uma narrativa cuidadosamente construída durante a campanha eleitoral. A fé foi o eixo central. O altar, o palco. A música gospel, trilha sonora. A política foi apresentada como missão divina e a eleição como resultado de um chamado maior. A promessa era clara: uma nova forma de governar, ética, técnica e comprometida com o bem comum.

Passado o período eleitoral, o que se observa é o choque entre o discurso espiritualizado da campanha e a realidade concreta da administração pública. O poder, quando exercido sem mediações institucionais sólidas, costuma revelar contradições que nenhuma liturgia consegue esconder.

Desde o início da gestão, a administração Samuel Carvalho passou a conviver com questionamentos administrativos, denúncias públicas, procedimentos em órgãos de controle e críticas recorrentes sobre a forma como a máquina pública vem sendo conduzida. Promessas de austeridade e responsabilidade começaram a disputar espaço com suspeitas de uso político de eventos, prioridades orçamentárias questionáveis e uma comunicação institucional voltada mais à autopromoção do gestor do que à transparência.

O mesmo governo que se apresentou como ruptura passou a repetir práticas antigas. O discurso contra o sistema esbarra em decisões que reforçam o próprio sistema. A promessa de gestão técnica convive com escolhas que priorizam a imagem, o marketing e o espetáculo, muitas vezes em detrimento da resolução de problemas estruturais.

Há denúncias envolvendo contratos, questionamentos sobre legalidade de procedimentos administrativos e apurações em andamento que colocam a gestão sob escrutínio. Nenhuma delas se resolve com discursos de fé ou com a tentativa de blindagem simbólica por meio da religiosidade. Órgãos de controle não respondem a orações, respondem a documentos.

Outro ponto que chama atenção é o uso recorrente de eventos públicos como ferramenta de construção de imagem pessoal. Grandes palcos, iluminação, música e discursos inspirados se tornaram marcas da gestão. O problema é que governar não é performar. A cidade não se administra com slogans, mas com planejamento, execução orçamentária e políticas públicas consistentes.

Durante a campanha, Samuel prometeu proximidade com o povo e diálogo permanente. Na prática, setores da sociedade relatam dificuldade de acesso, ausência de respostas e uma gestão pouco permeável à crítica. O poder, que deveria ser instrumento, começa a se confundir com identidade. E isso é sempre um sinal de alerta.

A fé, quando instrumentalizada politicamente, perde sua dimensão espiritual e se transforma em escudo simbólico. Questionar a gestão passa a ser tratado como ataque pessoal ou perseguição, quando, na verdade, trata-se do exercício legítimo do controle social e institucional.

A mudança prometida não se mede pela intensidade do louvor, mas pela coerência entre discurso e prática. O altar não substitui o gabinete. A música não executa políticas públicas. E a fé não exime nenhum gestor do dever de prestar contas.

A eleição foi vencida no campo simbólico. Agora, a gestão é julgada no campo real. E problemas terrenos não se resolvem com retórica celestia

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Jornalista, Intelectual Público, Pesquisador, Comunicador, Fotógrafo, Professor, Palestrante, Designer e Busólogo.