Uma psicóloga, mulher negra, mãe solo e doutora, com mais de uma década dedicada à formação acadêmica, participou recentemente de um processo seletivo para dar aulas em uma faculdade particular. Antes da entrevista, ela me procurou animada e confiante. Disse que estava indo para a seleção e que era uma boa oportunidade. Respondi desejando boa sorte, já imaginando que, pelo currículo e experiência, ela teria grandes chances.
Horas depois, ela me ligou. Começou dizendo que a entrevista tinha sido muito boa, que a conversa foi tranquila e que havia gostado da instituição. Perguntei se tinha dado certo. Ela respondeu que sim, mas em seguida fez uma pausa e disse que o problema não era a vaga, era o valor. Quando perguntei quanto estavam pagando, veio a resposta: R$ 20,00 por hora/aula.
Na hora, achei que tinha entendido errado. Perguntei novamente e ela confirmou: R$ 20 para dar aula no ensino superior. Em seguida, explicou que não compensava nem o custo do transporte entre a casa dela e a instituição. Disse também que, depois de mais de 10 anos de formação — entre graduação, especializações, mestrado e doutorado —, não fazia sentido aceitar aquele valor. Por isso, decidiu recusar.
A situação levanta uma questão que vai além de um caso isolado. Conversando com outro profissional da área, também psicólogo e professor em instituição privada, perguntei quanto ele recebia por hora/aula. A resposta foi R$ 30,00. Ou seja, na prática, a média encontrada gira entre R$ 20 e R$ 30 por hora/aula em faculdades particulares.
Ao mesmo tempo, nos bastidores da educação básica privada, existem relatos de professores específicos — geralmente profissionais já consolidados e reconhecidos — que conseguem receber entre R$ 40 e R$ 50 por hora/aula. Esses casos existem, mas não representam a maioria e, por questões óbvias, não podem ser individualmente expostos.
Ainda assim, a comparação é inevitável. Dados de convenções coletivas indicam que professores da educação básica privada recebem valores próximos de R$ 25 a R$ 28 por hora/aula, dependendo da região e do nível de ensino. Isso significa que, em alguns casos, o ensino superior privado está pagando praticamente o mesmo — ou até menos — do que outros níveis da educação.
No setor público, o piso nacional do magistério já ultrapassa os R$ 5 mil para uma jornada de 40 horas semanais. No ensino superior privado, porém, não existe um piso nacional definido, o que abre espaço para negociações individuais e, consequentemente, para a precarização.
Diante disso, a fala que ela me trouxe ao final da conversa resume o sentimento: depois de tantos anos de dedicação, estudo e qualificação, o retorno financeiro oferecido não acompanha o investimento feito.
A questão que fica não é apenas sobre essa vaga, mas sobre um cenário mais amplo de desvalorização do trabalho intelectual e acadêmico, especialmente em áreas como as ciências humanas. Em um contexto como esse, cresce também a dúvida sobre até que ponto ainda vale a pena investir tantos anos em formação superior sem garantias mínimas de retorno.
Essa não é uma realidade isolada. Por isso, a discussão precisa ser ampliada.
Na sua cidade, quanto está sendo pago pela hora/aula no ensino superior privado?
